2010

Chovo eu também, bem aqui, em tema já tão molhado: um balanço do ano que quase finda. Iniciar este blog foi um dos projeto mais bem sucedidos de um ano atarefado e cheio de bons concorrentes disputando este posto. A empreitada superou qualquer boa expectativa que eu pudesse ter eventualmente estabelecido de início (coisa que…

Paidos Agogé

  “O filho que não fiz hoje seria homem, ele corre na brisa sem carne e sem nome”, diz Drummond em “Ser”. Em verdade o filho ao qual faz referência, o tal “que viveu meia hora”, foi feito e desfeito no intervalo cruel e breve de trinta minutos. Meia hora sob o céu deste estranho…

Ser (por Drummond)

“O filho que não fiz hoje seria homem. Ele corre na brisa, sem carne, sem nome. As vezes o encontro num encontro de nuvem. Apoia em meu ombro seu ombro nenhum. Interrogo meu filho, objeto de ar: em que gruta ou concha quedas abstrato? Lá onde eu jazia, responde-me o hálito, não me percebeste, contudo…

Pré-virada (por Quino)

      (Mafalda, como já dito neste Blog, é criação genial do cartunista argentino Quino)

O Fantasma de Arcoverde

Um relâmpago me atinge bem agora em algum canto verde da alma. Chega um momento na vida de um homem em que ele simplesmente senta numa poltrona e se dá por recordar (Drummond again). O relâmpago é imagem desse movimento inevitável que des-esquece coisas dentro de nós iluminando cantos sombrios. Em meu caso o canto…

…de Emília e de todos nós.

“[…] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria os filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre. – E…

Velho Olhando o Mar (por Affonso Romano de Sant’Anna)

Para os que, como eu, acordam todos os dias aflitos com o limitado estoque da vida (já citando o homenageado do post) esvaindo-se tempo a fora, presenteio com essa crônica-tesouro narrada pela voz do próprio autor: o mineiro Affonso Romano de Sant’Anna. Que envelheçamos com dignidade ajuntando marés interiores a serem futuramente recordadas.   Affonso…

Relva Verde Relva (por Ferreira Gullar)

“Dentro de mim – mas onde? no céu da boca? debaixo da pele? – fulge de repente um largo verde esquecido dentro de mim ou fora (em algum lugar nenhum) de mim um largo como se fosse um lago e quase a transbordar de verde ouvia a miúda algazarra da relva rente ao chão ah…

Noite (in)Feliz

Natal: o carnaval dos ruídos. Minha alma cobriu aterrorizada seus castigados ouvidos primeiro diante das declarações que proclamam uma espécie de leilão de best wishes e depois (agora mesmo, pra ser mais preciso) ante o alarido dos rojões soltados à minha janela e que me privam do merecido sono que adiará por mais um ano…

E não gostavas de festa…

“Teu olho cansado fitava-nos alma adentro (…) e via essa lama podre (…) sabendo que toda carne aspira a sua degradação. (…) E o desejo muito simples de pedir à mãe que cosa, mais do que nossa camisa, nossa alma frouxa, rasgada… Beber. Beber é pois ato tão sagrado que só bebido meu mano me…

Poema (anti)Natalino (por Fernando da Mota Lima)

SONHO DE NATAL Quem te sonhou assim outro Natal Outro modo de amor, outro endereço Um bem além do bem, além do mal A luz que é força cega e não mereço? Quem ousara dizer o que não digo E entanto insone fala pelo avesso As coisas que ao dizer que te não digo Bem…

Morrer… amar…

Morremos a todo instante. Nas pequenas e grandes desilusões da vida, nos imprevistos, contratempos, no não-negociável que nos cerca, no que há de incontornável em nossa condição, no a-Muro, no amoródio, no impossível da relação sexual. Morremos um pouco na solene ilusão do sexo, no circuito que se reabre inexoravelmente após os jorros amorosos evidenciando…