O Anel de Vidro (por Manuel Bandeira)

“Aquele pequenino anel que tu me deste, – Ai de mim – era vidro e logo se quebrou… Assim também o eterno amor que prometeste, – Eterno! era bem pouco e cedo se acabou. Frágil penhor que foi do amor que me tiveste, Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, – Aquele pequenino anel que…

Mar Bravo (por Manuel Bandeira)

“Mar que ouvi sempre cantar murmúrios Na doce queixa das elegias, Como se fosses, nas tardes frias De tons purpúreos, A voz de minhas melancolias: Com que delícia neste infortúnio, Com que selvagem, profundo gozo, Hoje te vejo bater raivoso, Na maré-cheia de novilúvio, Mar rumoroso! Com que amargura mordes a areia, Cuspindo a baba…

Oração de Fazer Poeta

Meu caro Santo Drummond Bandeira de São Manuel, Carente está meu papel D’um verso denso e bom. Com métrica, rima e som Mandai-me do último céu, Um verso talhado a cinzel Oh Santos da letra do dom. Se a Moderna prece é centelha Guimarães santo não nega A quem do Sertão se ajoelha Valei-me oh…

Soneto Inglês n° 1 (por Manuel Bandeira)

“Quando a morte cerrar meus olhos duros – Duros de tantos vãos padecimentos, Que pensarão teus peitos imaturos Da minha dor de todos os momentos? Vejo-te agora alheia, e tão distante: Mais que distante – isenta. E bem prevejo, Desde já bem prevejo o exato instante Em que de outro será não teu desejo, Que…

Evocação do Recife (por Manuel Bandeira)

* Narração do próprio Manuel Bandeira “Recife Não a Veneza americana Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois – Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância A rua…

Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá (por Manuel Bandeira)

* Narração de Juca de Oliveira “As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me [bouleversam, me hipnotizam. Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde! O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá! Que outros, não eu, a pedra cortem Para brutais vos adorarem, Ó brancaranas azedas, Mulatas cor…

Jayme Ovalle

Algumas figuras queridas, dessas que iluminam a noite em que a humanidade (e em particular a brasilidade) se afunda possuem menções desmerecidamente resumida por este blog. É certo que o tempo haverá de fazer justiça a estes amigos e que assim que eu me desvencilhar de um par de atribuições eles serão evocados com o…

Poema de Dia dos Pais

Poema de Finados (por Manuel Bandeira) ———————————————– “Amanhã que é dia dos mortos Vai ao cemitério. Vai E procura entre as sepulturas A sepultura de meu pai. Leva três rosas bem bonitas. Ajoelha e reza uma oração. Não pelo pai, mas pelo filho: O filho tem mais precisão. O que resta de mim na vida…

Mascarada (por Manuel Bandeira)

“Você me conhece? (Frase dos mascarados de antigamente) – Você me conhece? – Não conheço não. – Ah, como fui bela! Tive grandes olhos, que a paixão dos homens (estranha paixão!) Fazia maiores… Fazia infinitos. Diz: não me conheces? – Não conheço não. – Se eu falava, um mundo Irreal se abria à tua visao!…

Profundamente

Como Drummond sou Fazendeiro de Ar. Meu roçado é de palavras, meu gado de ilusão (que foge continuamente na forma de amarga desilusão, verdadeiro e natural sentimento do mundo). Recolhido em minha campânula de vidro sigo meus dias protegido desse mundo ruidoso. Mas conforme meu poeta-patrono de tudo fica um pouco e esse mundo que…