Poema da Gare do Astapovo (por Mario Quintana)

“O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo, Contra uma parede nua… Sentou-se… e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida…

Dia dos Pais com Drummond

VIAGEM NA FAMÍLIA (Escrito e Narrado por Carlos Drummond de Andrade) “No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Não era dia nem noite. Suspiro? Vôo de pássaro? Porém nada dizia. Longamente caminhamos. Aqui havia uma casa. A montanha era maior. Tantos mortos amontoados, o…

Os Justos (por Jorge Luis Borges)

  OS JUSTOS ——————————– Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra haja música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta…

O Desejo Pego Pelo Rabo

A foto abaixo foi feita no dia 06/06/44 durante a reunião preparada para a primeira leitura dramática da peça “Désir attrapé par la queue” escrita três anos antes por Pablo Picasso. Na ocasião estavam presentes os principais formadores do espírito cultural de Paris, capturados pelas lentes do fotógrafo Gyula Halasz, o húngaro Brassai que, por…

Tempo de Carnaval, Restos de Cronos

Herdamos dos gregos (na leitura que deles fizeram os filósofos do medievo) a noção que guardamos de tempo e seus atributos necessariamente quantificáveis, métricos, mensuráveis. No dia-após-dia, residência do tédio conforme o Rei Macbeth, o tempo transcorre como coisa material que se perde e se gasta, imagem cuja metáfora primordial é uma ampulheta com seus…

Passagem do Ano (por Carlos Drummond)

“O último dia do ano Não é o último dia do tempo. Outros dias virão E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida. Beijarás bocas, rasgarás papéis, Farás viagens e tantas celebrações De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia E coral, Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o…

Joycerói

Em breve nota celebro a notícia da primeira edição brasileira de Stephen Hero, do irlandês James Joyce, que na tradução de José Roberto O’Shea, para a cuidadosa Ed. Hedra, transformou-se em Stephen Herói. Vem muito bem acompanhada da já comentada terceira tradução em nosso vernáculo do Ullysses ajudando a reparar, ao menos em parte, nosso…

Receita de Ano Novo (por Carlos Drummond)

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das…

EsClaricendo

Meu reflexo encontrado no profundo vazio especular se  reflete naquilo que leio em Clarice Lispector. Ali encontro eu próprio, meus nós, meus deslindes, o emaranhado supremo da vida. Lá encontro também uma Vereda, um caminho por onde atravessar a nuvem de fantasia que nos cega a vista e nos dispõe em peleja. Clarice que possui…

A Gente Ainda não Sabia… (por Mario Quintana)

“A gente ainda não sabia que a Terra era redonda. E pensava-se que nalgum lugar, muito longe, Deveria haver num velho poste uma tabuleta qualquer – uma tabuleta meio torta E onde se lia em letras rústicas: FIM DO MUNDO. Ah! depois nos ensinaram que o mundo não tem fim E não havia remédio senão…

Jayme Ovalle

Algumas figuras queridas, dessas que iluminam a noite em que a humanidade (e em particular a brasilidade) se afunda possuem menções desmerecidamente resumida por este blog. É certo que o tempo haverá de fazer justiça a estes amigos e que assim que eu me desvencilhar de um par de atribuições eles serão evocados com o…

Ascenso, o princípio

Ascenso Ferreira foi o responsável pelo meu primeiro alumbramento poético. Embora meu primeiro arrebatamento tenha se dado de maneira definitiva com João Cabral e sua poesia pluvial, minha alma aprendeu por primeiro a respirar sorvendo o sopro da poesia cotidiana do velho palmarense. Sua poesia pungente e divertida me apresentou em primeira mão (Freud, quando…