Poema da Gare do Astapovo (por Mario Quintana)

“O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo, Contra uma parede nua… Sentou-se… e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida…

Saravá, Vinícius

Vinícius completa hoje 100 anos de seu nascimento e 95 de poesia. Em sua precocidade, talvez ciente do muito a ser feito no fornecimento da beleza com que iria nos cercar, inicia-se poeta aos 5 anos, com caderninho de poemas e tudo. Nunca deixou de ser menino e, não obstante, envelheceu muito bem (eis o…

Vinícius de Moraes por Vinícius de Moraes

Em um depoimento emocionado, dado em um show ao vivo na Itália ao lado do seu então maior parceiro Toquinho, Vinícius fala sobre sua infância difícil em uma casa de praia, morando ao lado de pescadores depois que seu pai, por um desses revezes da vida, perde tudo o que tem. Ao lado dos filhos…

XII Soneto

“Quando a hora dobra em triste e tardo toque E em noite horrenda vejo escoar-se o dia, Quando vejo esvair-se a violeta, ou que A prata a preta tempora assedia; Quando vejo sem folha o tronco antigo Que ao rebanho estendia a sobra franca E em feixe atado agora o vejo trigo Seguir o carro,…

Fotobiografia dos Anos de Exílio de Fernando Pessoa

“A minha infância decorreu serena (…), recebi uma boa educação. Mas, desde que tenho consciência de mim mesmo, apercebi-me de uma tendência nata em mim para a mistificação, para a mentira artística. Junte-se a isto um grande amor pelo espiritual, pelo misterioso, pelo obscuro, que, ao fim e ao cabo, não era senão uma forma…

Quero o Ignorado (por Fernando Pessoa)

“Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e próprio Por calmo, encher meus dias De não querer mais deles. Aos que a riqueza toca O ouro irrita a pele. Aos que a fama bafeja Embacia-se a vida. Aos que a felicidade É sol, virá a noite. Mas ao que nada ‘spera Tudo que vem é grato.”…

A Criança-poeta de Freud e o Elefante de Carlos Drummond

Em um belo texto de belíssimo nome (Escritores Criativos e Devaneios), Sigmund Freud trata com rigor e originalidade a questão do manancial de onde brotam as águas da poesia concluindo, não sem uma emocionante argumentação, que “afinal, os próprios escritores criativos gostam de diminuir a distância entre a sua classe e o homem comum, assegurando-nos…

Ai de ti, ó velho mar profundo…

Após as três derrotas sofridas na concorrência por uma desejada vaga na ABL (em todas elas perdendo a indicação para poetas sem poesia pelo dedaço de algum agente político), Quintana escreve seu Poeminha do Contra. Acossado por jornalistas sem notícia que insistiam em colocar o dedo na ferida o grande alegretense repete seu movimento de…

Menino Chorando na Noite (por Drummond)

“Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora. O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas. E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher. Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás…

Dorme ruazinha… é tudo escuro… (por Mario Quintana)

“Dorme ruazinha… É tudo escuro… E os meus passos, quem é que pode ouvi-los? Dorme teu sono sossegado e puro, Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos… Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro… Nem guardas para acaso perseguí-los… Na noite alta, como sobre um muro, As estrelinhas cantam como grilos… O vento está dormindo…

Eu, etiqueta (por Carlos Drummond de Andrade)

“Em minha calça está grudado um nome Que não é meu de batismo ou de cartório Um nome… estranho. Meu blusão traz lembrete de bebida Que jamais pus na boca, nessa vida, Em minha camiseta, a marca de cigarro Que não fumo, até hoje não fumei. Minhas meias falam de produtos Que nunca experimentei Mas…