Um Vestido Para Cobrir nossa Solidão

Escada Vazia (Foto de Danilo Christidis)

Psicanálise, Filosofia e Poesia estão juntas, se co-pertencem     cruel- mente. Quando enlaçadas de modo borromeano dizem do ser do homem. Embora não sejam saberes harmônicos no sentido de que uma possa necessariamente ser dedutível da outra, ao seu modo falam do homem naquilo que lhe é mais próprio no exercício cotidiano de seu estar aí. Muitas vezes disputam o osso, adversas uma às outras, como cães ferozes e famintos de ódio e outras (raras e lindas epifanias) estão soberbamente concordes. No fragmento abaixo Drummond (que fez da poesia o seu divã de analista, como confessa à sua filha próximo do horizonte de suas mortes) emite um tratado filosófico-poético-psicanalítico acerca de um dos principais determinantes humanos: o que Lacan chamou de “a não relação sexual”. Significa que estamos lançados à vida sem possibilidade real de complementação. Não obstante a isso cremos (ou pior… desejamos) ingenuamente todas as belas metáforas do romantismo que tão bem foi definido pelo movimento de Goeth e Schiller como “tempestade e ímpeto” (Sturm und Drang) ou “tempestade e tormenta” tal como prefiro.

Nesse poema epifania estão dispostas as principais questões sobre alteridade, sobre o estar disposto, sobre ser-com. O que é aquele vestido no prego? Que memória é essa que, alta, nos assombra? A dona passou quando? Chegamos a conhecê-la? O corpo do amor que era quente ficou frio… já não veste como antes. São questões fundamentais sobre a impossibilidade amorosa que o poema nos evoca. É a trilha do antiquíssimo jogo de sombras onde amante e amado revezam-se no jogo nefasto do “quero ver quem me pega” até o retorno à eterna solidão acompanhada.

O vestido, aquilo que recobre a nudez de nossa solidão de indivíduo, é personagem principal desse confronto. Entretanto gosto de pensar naquilo que no poema funciona como pêndulo: a atenção posta na escadaria. Como uma artéria a escadaria vazia irriga o poema falando, também ela, de nossa solidão no sótão de nosso imaginário. Sozinhos nascemos, sozinhos nos mantemos, sozinhos nos enganamos, sozinhos nos odiamos… principalmente sozinhos “não escutamos pisar de pé no degrau”.

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CASO DO VESTIDO (por Carlos Drummond de Andrade)

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele…

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei… disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há… nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

Poema extraído de “Nova Reunião – 19 Livros de Poesia”, Editora José Olympio Editora – 1985, pág. 157.

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Sobre Pedro Gabriel

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3 respostas para Um Vestido Para Cobrir nossa Solidão

  1. Pingback: Aquela mulher do demo | lituraterre

  2. Rosa disse:

    Muito tocante, dolorido diria… Gostei demais da sua introdução, criou o clima perfeito para a leitura. Parabéns!

    • Pedro Gabriel disse:

      Agradeço mais uma vez a visita e a participação. A dor é para mim um elemento especialmente belo da condição humana embora acredite hoje que não devemos nos afundar em qualquer de suas expressões. Um abraço.

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