1938

Quando estudava Diplomacia em Londres, o poeta Vinícius de Moraes escreveu uma amargurada missiva à sua então noiva Tati de Moraes falando de seu confinamento na fria Inglaterra dos anos 30. Para o poeta, sua estadia era mais que um isolamento: era um cativeiro sombrio quase impossível de ser suportado longe das insígnias pátrias que ele tão precocemente aprendeu a amar: o barulho, a agitação, a falta de protocolos, a sensação constante de familiaridade que marcava as terras de baixo do Equador (o território silvícola donde se ausenta até hoje o pecado e qualquer forma de regulação social). Não creio que Vinícius fosse ingênuo, me recuso a crer que ele não tenha se apercebido do quão superficial é, em nossa constituição cultural, esse traço de um ininterrupto e aparente estado de confraternização geral onde pessoas que nem se conhecem já trocam apelidos carinhosos e se enlaçam e desenlaçam com a facilidade de quem procura um outro mascarado num amplo e eterno carnaval. Talvez a distância e a saudade tenham levado nosso Vinitius a supervalorizar elementos que, contrariando o que ele próprio pensava, não se constituiriam no ponto de fusão de sua poesia. Também sua relação com a terra brasilis não é foco desta litura.

Voltando ao Velho Mundo, Oxford era um poço de isolamento para Vinícius que se sentia reduzido a um barulho de tamancos circulando dentre um bando de ECCE HOMOs de si próprios (como confessara um pouco antes em uma carta igualmente pesada endereçada a Jayme Ovalle). Tati de Moraes seria futuramente a inspiradora do “Soneto da Fidelidade”, um dos muitos pontos de popularidade da obra de Vinícius que contribuem para que sua obra seja avaliada de modo tão levianamente afetivo e não, como seria justo, estético. Vinícius escrevera certa feita à sua mãe: “- Quanto mais a traio, tanto mais a amo.”.  Sendo isso verdade, Vinícius a amaria então nos seus oito casamentos subsequentes. E era a essa amada, que havia sido disposta pela vida a ocupar o posto de recebedora desse amor saudoso e dessa poesia que renascia em estado mais maduro e formal tornando-se já publicável, que receberia de Vinícius a confissão de seu desejo de largar os estudos e retornar ao lar sem a conclusão dos estudos que lhe daria uma privilegiada colocação.

Vinícius escrevia já desde os 12 anos de idade (quando protegeu seu diário com um belo Soneto praguejando “Caldeiras de aço líquido no inferno” para quem o profanasse), descobrira a poesia nos sofrimentos do jovem menino. Mas fora o sofrimento do homem maduro (dentre os quais o isolamento da pátria figurou como um dos principais, dentre outros igualmente marcantes em seu curso), quem amadureceu essa potência poética que surgiu com voracidade levando-o a corresponder-se com seus pares (Manuel Bandeira, Otto Lara Resende, Adolfo Casais Monteiro, Chaplin, Augusto Frederico Schmidt, Drummond, Ferreira Gullar, Helio Pelegrino, Mário de Andrade, Rubem Braga, dentre muitos outros) e não somente aplacar a solidão, mas amadurecer esse movimento de transformar a matéria turva da vida em poesia. Prova de que Vinícius era considerado já um poeta foi o fato de que numa dessas cartas do fog time o poeta Manuel Bandeira enviou-lhe uma amostra do primeiro dos dois Sonetos Ingleses que escreveria em vida. Esse seguia ainda sem as leves alterações que lhe dariam o formato definitivo. Mandava para a apreciação de Vinícius e confessava sua alegria de ter conseguido compor segundo tal formato. Era um poeta dentre os poetas maiores.

Talvez nem fosse a distância de sua “mãezinha” (sempre a lhe cobrar vida séria) que lhe doesse tanto, mas talvez o talento poético que enfim lhe amadurecia e lhe abria os olhos para tantas questões essenciais da experiência de existir e que de algum modo se escanteavam com o álcool, o sol e o samba. A poesia enquanto desocultamento do ser é sempre algo difícil de ser encarado. Demanda Serenidade. Vicenciando essa experiência, Vina sentia que nunca mais seria o mesmo, não regressaria igual após o que se sucedeu do lado de dentro da cortina de neblina (sobretudo após o que se sucedeu do lado de dentro de sua boina). E essa mudança (mais que a saudade de suas coisas brasileiras) estava lhe sendo insuportável. Escreve para Tati falando de sua incerteza quanto à sua capacidade de chegar ao final da trajetória afirmando que a única coisa que o sustentava firme no projeto era seu desejo de, concluindo os estudos diplomáticos, poder dar a sua futura primeira esposa o regalo de uma vida confortável (tal como seu amor lhe fazia achar que esta merecia). Compreensiva, Tati lhe responderá a 06 de Outubro de 1938, que sua infelicidade é motivo justificado de retorno imediato já que “Eu não tenho medo também de uma vida apertada. Eu teria medo de uma vida deselegante” (coisa que jamais teria enquanto estivesse ao lado de seu Vina).

Vinícius é de uma geração de poetas cerebrais. Mário Quintana se orgulhava do fato de ter sido um menino de aquário: desde pequeno olhava a vida do lado de dentro de uma vidraça. Drummond fazia de seu isolamento a expressão socialmente válida daquele egoísmo do qual nenhum ser humano pode escapar. Bandeira, em sua constituição frágil, impedido pela tuberculose, viveu sonhando com uma Pasárgada onde poderia finalmente montar burro brabo e tomar seus sonhados banhos de mar. Vinícius, ao contrário, descobriu a poesia no exercício pleno e irrestrito do amor e da vida. Sua descoberta da poesia se deu quando, por ocasião de revezes financeiros que fizeram seu pai (um homem outrora muito rico) perder tudo o que tinha, foi obrigado a ir morar na Ilha do Governador numa humilde aldeia de pescadores. Foi entre os filhos e filhas de operários, na humildade do viver, do vestir e do comer, que seus olhos passaram a enxergar a liberdade e a dignidade humana. As filhas dos pescadores lhe ensinaram o amor irrestrito à mulher e o Mar se lhe prestou como primeira cama. Estes foram os valores absolutos de sua vida e de sua poesia. E foi essa vivência que fez com que Drummond afirmasse em certa ocasião que, dentre os de sua geração, Vinícius foi o único poeta que verdadeiramente viveu como tal.

E eu que pretendia escrever sobre meu diário e partilhar uma experiência de vida acabei por falar de Vinícius. Talvez porque eu tenha encontrado no subsolo de minha história uma experiência que talvez seja o ponto em comum entre Bandeira, Drummond, Vinícius, Quintana (grupo onde ousadamente me coloco, menos pela qualidade literária do que produzo e mais por uma postura semelhante diante da existência). Mas qual poderia ser a postura existencial comum entre esses poetas vivencialmente tão opostos. Talvez por vias distintas todos nós tenhamos (uso a primeira pessoa porque nesse grupo eu me incluo) descoberto em algum ponto do curso de nossa turbulenta história uma cerca de indiferença farpada a nos distinguir das demais pessoas que consideram que o essencial desta vida é o sucesso material (expresso sobretudo no quanto se ganha por ano).

Criança pobre que fui, passei anos doloridos ouvindo que violão não dava dinheiro e que literatura, além de ser coisa era coisa de mulher, não me tiraria daquela condição de penúria (tendo chegado mesmo a amargar a proibição de tocar o meu instrumento). Desencorajado inclusive pelos meus professores (por quem nutria uma silenciosa admiração) a arquitetar o projeto de uma vida intelectual, fui encontrar nos padres do colégio que estudava o incentivo a uma vida pensada. Desde muito cedo, diante dos apelos de sucesso material, eu me perguntava (olhando para os modos rústicos dos “bem sucedidos” de minha pequena cidade do meu Grande Sertão) de que valia ganhar tanto dinheiro e se manter ignorante no senso e bestial nos modos ou, o que talvez seja pior por ser mais velado, aparentar uma fineza que igualmente à animalidade já mencionada era sintoma de se estar alheio aos bens inefáveis que só podem ser fruídos no universo do recolhimento, da elegância, da arte (as únicas coisas das quais Tati de Moraes não poderia prescindir). “De que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida?”, diziam os padres citando o Evangelho referindo-se na verdade a uma vida atenta às questões verdadeiramente importantes da existência sobre as quais devemos uma resposta singular e das quais tantos fogem uns tentando ganhar dinheiro e outros tentando gastá-lo.

Talvez seja esse o ponto que une Drummond, Bandeira, Vinícius, Quintana e todos os que se apoiaram na poesia e na arte para construir um mundo interior em harmonia com o sem sentido da existência. O que explica Vinícius não é sua viagem à Inglaterra do mesmo modo que o que explica Bandeira não é seu recolhimento ao Beco do Rato onde morou por vinte anos. O que os explica (e também aos outros citados) é a viagem interior que ousaram empreender rumo às paisagens mais profundas de sua condição falível: poço de onde retiraram seus baldes de poesia. Essa viagem que tantos renunciam em nome da procura por coisas menores e que se perderão na curva do tempo.

O que explica o a(u)tor desse blog não é o fato de nunca ter estado no Velho Mundo, mas o fato de que assim como seus heróis reconhece que a vida é a principal das viagens e prefere por ela de olhos abertos. Mesmo os pesadelos sugeridos pela lucidez são preferíveis à analgesia do sono. Com as piscinas de Uísque que Vinícius tomou ele não renunciava ao pensamento crítico. Uma amostra disso está em sua poesia lisérgica que seguiu apaixonada até o fim, tão mais profunda quanto mais embriagada. A poesia de Vinícius fez sua vida mais curta, porém mais intensa e mais nobre.

Pensando na carta de Tati de Moraes, na minha infância, em todas as difíceis vidas dos poetas, nas minhas estreladas noites no Sertão, repito hoje a sua frase (dita há mais de setenta anos atrás) que o essencial não é ganhar dinheiro. Lembrando minha solidão de menino que hoje amadureceu e se tornou solidão de homem, reafirmo interiormente a minha esperança de encontrar outro par de olhos abertos que seja uma companhia que não contradiga meu modo de ser neste mundo: meu pacifismo radical. O Amor é em geral traição e luta covarde e todos os escritores abaixo terão demonstrado isso muitas vezes no curso de sua poesia. Mantenho, no entanto, acesa a chama da esperança de ser possível um amor que faça, como diz outro poeta, o gozo condescender ao desejo.

Saravá poetas todos. Saravá… e obrigado!

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