O Terceiro Frio da Rússia

“- Te levo comigo”, disse Ribamar sob o frio implacável do inverno moscovita. Nevava fortemente sobre a capital e sob os enamorados se avolumava um pesado e branco manto de uma transparência alva que, em verdade, os iria enlutar. A lua alta era uma sentinela de olho vigilante a interrogar-se sobre o desfecho de tal história. Um observador atento ao sensível do momento diria ser ela, a lua, a soluçar lágrimas de espanto pelo destino que cruelmente os colocara em tal encruzilhada. As lágrimas do céu, derramadas em flocos gélidos, os envolvia como se estivessem num frasco de cristal e o chão, dentro de tal vidro, era um mármore frio e brilhante para onde os olhares melancólicos, sem alternativa, olhavam agonizantes. Ele, um revolucionário exilado, expulso duramente de seu país, vagou apatriado pela América do Sul e Europa quando, em sua última parada, apaixonara-se por sua Helena. O amor possuía contrapartida e crescera na pele da amada russa com raízes profundíssimas como as de um Carvalho secular. A situação, entretanto, era incontornável e insolúvel. Findo o exílio, Ribamar desejava voltar à pátria e dar seguimento à sua luta. O combate, entretanto, não era de Helena e ele sentia agora um outro frio, um que emanava das profundezas do abismo que crescia entre eles a cada palavra dita. Ribamar, amante e poeta, compreendeu que precisaria escolher entre um e outro sonho de ouro. Decidido a regressar, restava a cinza do primeiro impasse: quando, e em que termos, tudo iria se concluir? Marcaram a despedida e sob um dilúvio de lágrimas o poeta escreve seu último apelo em forma de doloroso verso. No dia seguinte, em crepúsculo sem neve, o amante espera e espera em vão, Helena não comparece ao último encontro para os derradeiros jorros amorosos e o poema-despedida nunca foi lido: o profundo mistério da não-relação dança sobre mais dois cadáveres desfeitos no amargo da desesperança. Um terceiro e derradeiro frio o assalta novamente: uma brisa vinda das estepes de sua alma agora sem Carvalhos, rodopia em torno de seu sofrimento que é maior que a Praça Vermelha, maior que a Revolução, maior que a História. Mais vento e mais frio arrancam o poema de sua mão e seu olhar bruxuleante acompanha seu trajeto: dá duas voltas e meia no ar e repousa com candura sobre uma poça constituída de um amálgama de neve e amor derretidos: na poça salgada as palavras se perdem eternamente.

O conto acima, escrito por mim no meu cubo de trevas na fria noite de 24 de Julho de 2011, foi composto a partir dos fragmentos de dolorosa história vivida por José Ribamar Ferreira (tornado célebre por seu pseudônimo de Ferreira Gullar). A história concreta é curta e termina na enunciação de três curtos fatos que provocaram a minha imaginação literária a preenchê-los com uma possível história linear (dotada dos detalhes que Ribamar se negou a fornecer): seu exílio em Moscou, o amor abdicado por Helena quando finalmente pôde voltar ao Brasil, o poema despedida de nome “Cantiga pra não morrer”, que transcrevo abaixo, escrito e lido na despedida. Diante do imperioso desafio “do que podia ter sido e não foi” (conforme o gigantesco poema de Bandeira), Ferreira Gullar faz um sintoma compondo o seu próprio pneumotórax que é também Tango Argentino.

CANTIGA PRA NÃO MORRER (por Ferreira Gullar)

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“Quando Você for-se embora
Moça branca como a neve
Me leve, me leve.

Se acaso você não possa
Me carregar pela mão
Menina branca de neve
Me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar
Moça de sonho e de neve
Me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
Por tanta coisa que leve
Já viva em seu pensamento
Moça branca como a neve
Me leve no esquecimento.”

10 comentários Adicione o seu

  1. Pedro Gabriel, sei que esse trabalho poético literário é seu, porque me apoio em nossa convivência.Adoraria que você rabiscasse um traço, sua assinatura, tal qual Ferreira Goullart com o poema. A Lua, aqui, revela-se inaudita e inédita, ao soluçar espanto e se condoer pelos amantes.Lindo texto.

    1. Pedro Gabriel disse:

      Cecília Maria Cecília, tentei expressar a dor do incontornável, a não-relação prega aqui mais uma de suas peças em todos os amantes, como nós, condoídos. Obrigado pelo comentário.

  2. Não saberia colocar este papel sobre a poça como colocaste.

    Ótimo

    1. Pedro Gabriel disse:

      Poeta prezado, grato pela presença constante e pela generosidade habitual.

  3. Gaio disse:

    Não gosto. Muitos adjetivos, excessivo, forçada a narrativa. Há problemas narrativos e primordialmente de construção. Tente exercícios de construção, lapide as frases, perceba o excesso. É um texto que não funciona como está.

  4. Clegiane Santos B. Dantas disse:

    Quantos frios não sentimos ao longo da existência!!

    1. Pedro Gabriel disse:

      Tantos quantos são necessários para nos fazer falar: somos, nós próprios, filhos do frio.

  5. Clegiane Santos B. Dantas disse:

    Quantas despedidas, quantas não despedidas, quantas lágrimas jorradas, quantos amores perdidos… Quantos porquês não nos arrebenta!! Eis o que deixamos e levamos, eis o que só as palavras podem tentar explicar… Mas será que conseguem?

    1. Pedro Gabriel disse:

      Clegiane, a condição para que haja palavra é que ela não alcance seu propósito. Falamos para não sucumbir ao império da perda. Grato pela visita e pelo valioso comentário.

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