Pequena Crônica Policial (por Mario Quintana)


“Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grave beleza…
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, da bebida…
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E enquanto abriam, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldta sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada…
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!”

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Sobre Pedro Gabriel

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4 respostas para Pequena Crônica Policial (por Mario Quintana)

  1. Carla Graziela disse:

    Lembrei de outro de Quintana, onde ele diz que a “morte é a libertação total, é quando enfim podemos deitar de sapatos…” =)

  2. Adoro essa fantasia policial, sangrenta, ferida aberta a se oferecer ao estranho olhar de passantes.O poema me rende ,rendeu-se primeiro o poeta, diante da mulher esfaqueada.O tema,trabalho das letras, enoda belos significantes que produzem o furo.Há que se pensar também no ato, naquilo que ele promove, deixando alí sua causa. Esfaqueada,faz borda, a isso que da mulher é furo.Ah, essa mulher tão “perdida”, “alegre menina”, que “sem saber de nada”, apresenta-se como não toda.Céus!!

    • Pedro Gabriel disse:

      O significante opera furos… mas nada como a faca pra retalhar o real da carne. Fiquei me perguntando como ela entra alegre no céu… se finalmente não integraria uma série. Me pergunto pensando na antiga verdade teológica de que os seres celestes são asexuados: isso destituiria a fixidez da colocação do falo no lado masculino (pela não existência de tal lado)? Mas que bobagem eu pensei. A morte é um evento da vida e enquanto tal subsiste somente no imaginário que ressalta os lugares sem nada dissolver. Conclusão: entra ainda mais não toda no nosso ainda menos céu. Afinal os sapatos são antigos.

  3. Eu privilegiei a construção da fantasia,do furo no feminino, adorei ver isso em poesia.A significação possível para todo ser e todo ter, vem do falo, restando somente aos seres celestes, a não sexuação.Mais interessante, ainda é que o poema deixa em suspenso a travessia “Entrou correndo no céu?!”, podendo fazer pensar que esse gozo anunciado, reivindicado, é mesmo barrado, perdido, irrecuperável.Há umas pegadinhas infantis mesmo em nossas vidas, a fantasia ( restos de experiências vistos e ou ouvidos e não compreendidos, anteparos psíquicos, moldura para o real) seriam os antigos sapatos?

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