Nando e as Águas

Nosso Fernandão tinha beleza pulsando dentro do peito. Era indivíduo saltado de um conto de Guimarães Rosa, como um personagem da margem terceira: “homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação”. Esse era o nosso Fernandão. Foi a pessoa mais doce…

Luto

Em um dia triste para os homens de Espírito lamentamos a perda de Abu. Em conversa com um amigo querido com quem partilhei a dor do luto, imaginamos o próprio Shakespeare, patrono da arte na qual era mestre, conduzindo-o pela mão até o céu onde por ele esperavam Cervantes e Milton. Obrigado Abu. Sua postura cheia…

Saber Perder

“O romance é uma forma superior de vida”, afirma Graciliano Ramos pouco antes de morrer. Com ele concordaria Mario Vargas Llosa para quem o romance possui uma dimensão reparadora do que há de naturalmente deficitário no percurso humano. Para o peruano, é prejudicial qualquer dimensão restritiva nas narrativas romanescas que devem tudo caber: o melhor…

Marx, Freud e Nietzsche: revolução ou subversão

“Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.” (Émile Zola) “Meu dever é falar, não quero ser cúmplice.” (…) (Émile Zola) Não são poucas as passagens onde Freud e Lacan apontam o fundo homicida por trás dos messianismos políticos, hipótese que o século XX atesta assinando com o sangue de milhões de civis….

Jommond Drubim

Os grandes autores deixam uma obra imortal em lugar de suas inconvenientemente fugazes vidas. Elas, as obras, pasto macio de nosso conforto, mais do que uma compensação à vida que carreia consigo a morte, configura-se em uma continuidade extra-mundana: presente de madureza, um cristal de imortalidade. De nosso passo tão pouco caprichoso talvez não reste…

Carta a um amigo enfermo

Queridíssimo amigo, Sua mensagem me enche de alívio pelo que comporta de auspiciosa quanto ao afastamento do que (me parece) de mais grave poderia implicar em um diagnóstico. Afastada a tumoração, entendo que muito provavelmente o outro diagnóstico (qualquer que seja) será tratável e curável. Tenho plena certeza (e sei que falo pela boca de…

Fragmento de Sertão

“Eu estava de sentinela, afastado um quarto-de-légua, num alto retuso.  Dali eu via aquele movimento: os homens, enxergados tamanhinho de meninos, numa alegria, feito nuvem de abelhas em flor de araçá, esse alvoroço, como tirando roupa e correndo para aproveitaremde se banhar no redondo azul da lagoa, de donde fugiam espantados todos os pássaros –…

Saramago e a Irrelevância da Literatura (por Fernando da Mota Lima)

“Apesar da idade e da doença, José Saramago continua ativo. Vem agora ao Brasil lançar seu novo romance, que é apenas um pretexto para que se pronuncie sobre questões políticas e inquietações humanas que seus leitores não têm idéia de como enfrentar. As aparições públicas de escritores de prestígio como Saramago e a natureza do…

Poema da Gare do Astapovo (por Mario Quintana)

“O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo, Contra uma parede nua… Sentou-se… e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida…

O dia de que mulher?

Não há somente beleza na afirmação de Platão de que “o tempo é a imagem móvel da eternidade”. Há também, nessa postulação de capital importância, a menor síntese do ocidente em seu percurso oscilante entre uma e outra proposta de organização do mundo. Quando diz Platão que o tempo em seu devir é cópia, simulacro…