Saravá, Vinícius

Vinícius completa hoje 100 anos de seu nascimento e 95 de poesia. Em sua precocidade, talvez ciente do muito a ser feito no fornecimento da beleza com que iria nos cercar, inicia-se poeta aos 5 anos, com caderninho de poemas e tudo. Nunca deixou de ser menino e, não obstante, envelheceu muito bem (eis o…

História (sempre) mal contada… (por Mia Couto)

“História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens. Agora, quando desembrulho minhas lembranças eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo. Porque enquanto me descubro, eu mesmo me anoiteço, fosse haver…

Palavras de Passarinho

Do latim vita, vida é um conceito que herda a complexidade do fenômeno ao qual se refere: difícil de se definir, difícil mesmo de se determinar seus contornos suficientes e necessários. Seguindo as definições clássicas (de movimento, metabolismo e interação com o meio) uma estrela ou um vulcão estariam tão vivos quanto você ou eu….

Eu sei, mas não devia (por Marina Colasanti)

“Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a…

A Partida (por Augusto Frederico Schmidt)

“Quero morrer de noite. As janelas abertas Os olhos a fitar a noite infinda Quero morrer de noite. Irei me separando aos poucos Me desligando devagar. A luz das velas envolverá meu rosto lívido. Quero morrer de noite. As janelas abertas. Tuas mãos chegarão aos meus lábios Um pouco de água E os meus olhos…

O Herói Sujo

A echarpe e o chapéu coco seriam insuficientes, mas eram todo o arsenal de que Olia Ginsburg dispunha para lutar contra o inverno parisiense que naquele ano havia reinado rigoroso pelos domínios gauleses. Com estes atravessara a cidade em direção a um prédio abandonado em Pigalle, quartier do baixo meretrício, movida pelo resoluto intuito de…

Arco-Íris (por Ascenso Ferreira)

“-Como é bonito! Como é bonito! Cheio de cores… cheio de cores… -Viva o Arco-Íris! – ecoa um grito. -Oh! Como é belo! Tem sete cores… -Está bebendo água no riacho! -Vamos cercá-lo… vamos cercá-lo -Vamos passar nele por baixo! -Vamos passá-lo… vamos passá-lo… -Fugiu do riacho… Subiu o monte… -Vamos pegá-lo… vamos pegá-lo… O…

A Pedra e o Viúvo

Drummond entra na poesia com seu brilhante Alguma Poesia cuja publicação, datada de 1930, foi custeada com economias próprias. Nele ouve-se retumbante seu magnífico No meio do caminho, de longe, o poema dono da mais extensa fortuna crítica de nossa literatura. Mesmo estreante, o Gauche Itabirano não era propriamente um desconhecido ao quebrar seu cofre-porquinho…

Arquitetura

“O mais importante não é a Arquitetura, mas a Vida, os Amigos e este Mundo injusto que devemos modificar” (Oscar Niemeyer)

Zorba: vida, morte e liberdade

Ontem, em conversa breve de corredor, uma alma generosa de fala macia tentou me consolar falando sobre o alívio que é terminar o mestrado. Posteriormente, digerindo seu convite à paciência, me recordei de uma leitura antiga que gravou na minha mente o que seria a imagem perfeita da liberdade. O fragmento é de “Zorba, o…

O rocambole de liberdade e o enforcamento do ser

A vida é maior que qualquer obra, ela sim (e somente ela) é a composição inesgotável por excelência. Comporta todas as grandes obras e, mais do que isso, serve-lhes de matéria prima. Dentre todas as organizações, casuais ou propositais, feitas pela mão humana, a vida persiste como seu contexto mais geral, a moldura onde todas elas…