Saber Perder

graciliano“O romance é uma forma superior de vida”, afirma Graciliano Ramos pouco antes de morrer. Com ele concordaria Mario Vargas Llosa para quem o romance possui uma dimensão reparadora do que há de naturalmente deficitário no percurso humano. Para o peruano, é prejudicial qualquer dimensão restritiva nas narrativas romanescas que devem tudo caber: o melhor e o pior, o excelente e também o vergonhoso, visto que a arte é dotada de uma dimensão de ensaio do futuro. Sendo assim, as grandes narrativas não somente respondem por uma solução de continuidade histórica (capturando o espírito profundo de uma época) como é também são hábeis em desenhar formas superiores e aperfeiçoadas da vida que não ocorre sem trombadas. Há aí uma bela e inteira teoria literária. Eis a superioridade da literatura: diante de uma vida que continuamente se perde, de um decréscimo constante ao que Drummond chamou de um “desmonte palmo a palmo” rumo à nossa inevitável vocação de planície, os romances são acréscimo. A vida é trágica e não há outro modo de compreendê-la a não ser pela via da tragédia. Isso garantem ao menos meia dúzia dos melhores homens que a História já produziu. Bastaria a experiência da morte para imprimir na vida seu indelével trágico. Além dela, existem as diárias perdas para as quais deve estar nutrida de beleza e imaginação literária a nossa frágil alma. Se as grandes narrativas romanescas são aquilo que literariamente se opõem à morte, a poesia (ao lado do chiste) é o que se opõe ao tropeço e ao anzol. Os imortais versos de Elizabeth Bishop são perfeito exemplo do passar adiante promovido pelas construções poéticas.

 

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ONE ART (Poema de Elizabeth Bishop)

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied.  It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

 

A ARTE DE PERDER (Tradução de Paulo Henriques Brito)

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério

 

bishop

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