Caso Pluvioso (por Drummond)

“A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo. E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava. Eu era todo barro, sem verdura… Maria, chuvosíssima criatura! Ela chovia em mim, em…

Paisagens do Sertão de Rosa

Sertão é isso: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha idéia de tudo só ser o passado no futuro. Imaginei esses sonhos. Me lembrei do não-saber. E eu não tinha…

Poema da Necessidade (por Drummond)

“É preciso casar João, é preciso suportar Antônio, é preciso odiar Melquíades é preciso substituir nós todos. É preciso salvar o país, é preciso crer em Deus, é preciso pagar as dívidas, é preciso comprar um rádio, é preciso esquecer fulana. É preciso estudar volapuque, é preciso estar sempre bêbado, é preciso ler Baudelaire, é…

Por Você Por Mim – Fragmento (por Ferreira Gullar)

“A noite, a noite, que se passa? diz que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta pantera lilás, de carne lilás, a noite, esta usina no ventre da floresta, no vale, sob os lençóis de lama e acetileno, a aurora, o relógio da aurora, batendo, batendo, quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão…

O Eterno Retorno

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada…

Consolo na Praia (por Drummond)

  “Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em…

Os Ombros Suportam o Mundo (por Drummond)

 “Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás….

O Fantasma de Minas

Ser mineiro é ser gente. A frase não é minha, mas de Drummond. Em seu belo “Ser Mineiro” ele fala dos atributos delicados do povo das montanhas que ouve mais que fala e tem a prudência de não pisar no escuro ou dar rasteira em vento. Ser mineiro, principalmente (e é onde reside o contagioso…

O Duplo (por Affonso Romano de Sant’Anna)

“Debaixo de minha mesa tem sempre um cão faminto -que me alimenta a tristeza… Debaixo de minha cama tem sempre um fantasma vivo -que perturba quem me ama. Debaixo de minha pele alguém me olha esquisito -pensando que sou ele. Debaixo de minha escrita há sangue em lugar de tinta -e alguém calado que grita.”…

José (por Drummond)

“E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, Você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, Você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não…