O Fantasma de Minas

Ser mineiro é ser gente. A frase não é minha, mas de Drummond.

Em seu belo “Ser Mineiro” ele fala dos atributos delicados do povo das montanhas que ouve mais que fala e tem a prudência de não pisar no escuro ou dar rasteira em vento. Ser mineiro, principalmente (e é onde reside o contagioso encanto dessa coisa que independe de onde se nasce) é sentir o despertar do tempo e cultivar uma vida interior. Por isso em conversa com sua filha, pouco antes de sua inesperada morte, Carlos a escandaliza dizendo não ser brasileiro, mas antes de qualquer outra coisa Mineiro. Essa é talvez a imagem mais radical do desesperado poema José: “sozinho no escuro qual bicho no mato” e “sem cavalo preto que fuja a galope” talvez não reproduzam a dimensão abissal do “Minas não há mais”; verso negro que gerou tantas controvérsias com Afonso Arinos que não conseguia entender que do auge de sua dor, as raízes lhe faltavam e Minas, mesmo sendo eterna, não havia mais pra ele naquele instante. Faltando Minas faltaria o ponderável.

Minas me falta. Pra mim Minas não há. Tenho a infelicidade de residir num imenso acampamento que alguns cinicamente chamam de cidade. De Recife se poderia dizer o mesmo que disse Shakespeare (pela boca de Hamlet): um “jardim inculto em que se medram ervas daninhas, cheio só das coisas mais rudes e grosseiras”. A terra que de seu ventre pariu Manuel Bandeira, Antônio Maria, Carlos Pena Filho, Joaquim Cardozo, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto e que foi mãe adotiva de Clarice Lispector e Ascenso Ferreira é hoje uma cloaca de fedentina e violência onde o único teatro que se encena é o “Som e a Fúria” de equipamentos de som acoplados em malas de carro com a potência sonora para abalar quarteirões. O machismo, a violência, a arrogância “de valorizar o que é da gente” e uma irremediável índole invasiva desenham o perfil de HellCife: inferno que os corações de maior sensibilidade têm de aturar noite e dia.

O fato de ser pernambucano é fatal, sem dúvida. Não teria (e nem desejaria) negar seus aspectos determinantes. Em uma litura futura pretendo escrever sobre como ser sertanejo me levou à procura da poesia. Da mesma forma que a mãe metaforiza amor no leite que lhe sai do peito, a Existência fez o mesmo me trazendo à poesia quando repeti o Severino caminho de ir em busca das terras do mar. Um dia falarei dessas marcas. Não hoje. O fato é que tenho uma profunda identificação com os poetas de minha terra e com os elementos contextuais que me fazem compreender Cabral, Bandeira e Ferreira como se eles fossem Ghost Writers de minha própria vida. Entretanto repudio o modo como aqui se vive: beirando a animalidade. Nessa cidade papel e tinta de nada parecem valer ou servir. A elegância, a privacidade e a delicadeza foram abolidos como coisas estranhas à tribo.

Minas também foi terra que berçou alguns gigantes e me sinto estranhamente irmanado a estes. Arinos, Drummond, Guimarães Rosa, Affonso Romano, Fernando Sabino, Adélia Prado, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, são irmãos que correm no vento e, de noite, arejam minha solidão. Eles adentram pela janela durante o dia nos estriados raios que escapam da persiana. Sobretudo me invadem a pele com suas astutas e ousadas observações sobre as paisagens humanas em seu estado mais inóspito.

O chão de ferro de Itabira, os enormes Buritis de Cordisbugo, o silêncio de Divinópolis e a elegância natural de Belo Horizonte foram o enxoval que Minas lhes forneceu para escrever, com a dor de sua poesia (e assombrados pelos cães famintos embaixo de suas mesas) os mais belos retratos de nossa condição.

Minas me assombra. Um fantasma (como disse um amigo) é um ancestral não levado à categoria de Mestre. Um ancestral sem uma tumba Real que o faz errar errar errar. Sem não cessar de não. Talvez Minas seja pai.

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Sobre Pedro Gabriel

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7 respostas para O Fantasma de Minas

  1. Pedro Gabriel, segue minha pequena contribuição.
    No meio do poema, Minas.Ter nascido em Itabira e convivido com a poesia de Drummond, seja em família, na escola e mesmo nas prosas de rua, coloca diferentes matises por sobre a coisa.Crescí lendo e cantando o E agora José . A experiência comporta em sí, variados prismas. Uma das vias (sacras?) é que o texto-mensagem está ao alcance para apaziguar beco sem saída.Poema facilitador, tranquiliza- dor.” E agora, José?”, saca-se uma resposta.Também se presta a indagar, inquirir outro que o diga.Estranho, sempre desacreditei a tal prudência mineira de não pisar no escuro, de não dar bom dia a cavalo, isso nunca bem entendí, me parecia coisa de espertalhão, velhas raposas prontas para suas presas apanhar e também, cousas de quem nada queria expor ou perder.Garantias inconfessáveis, a vida transpirava em segredos os poderes dos sete pecados.Penso que tal outra face bem pode ser, encontrar no” E agora José?” -uma pergunta em escansão- o trajeto a percorrer, num primeirissimo tempo, onde o Sujeito, frente ao Real nessa qualidade opaca, vê surgir a angústia como o inominável.Tempo em que nem há o que dizer. O grito, de Munch, os olhos arrancados em Homem de Areia, Zacarias pirotécnico morto, não se querendo em uma vala, qualquer resto, em Murilo Rubião. Tudo que depois se torna extimidade é nesse primeiro tempo, pavor. No poema-desamparo, a elaboração(perlaboração), é apontada em” Minas não há mais”, como lugar para a castração simbólica. Castração que aponta algum sentido para sentido nenhum e instaura o trauma, não de uma trama desfeita, mas de algo que surge desavisadamente e se impõe ao sujeito.” Minas não há mais”, vem em socorro, pois bordeja, contorna e contém o descalabro vivido no Real.Ponto de basta, condensador de gozo, testemunho da dor de ex-sistir.O a posteriori freudiano trata do traumático encontro do sujeito com o Real demonstrando que este não é pleno. Ao Real, falta. A castração simbólica, bem mais precioso , aquilo que o sujeito mais teme entregar ao A, pode na via do semblante recolocar o desejo.Se há castração , Minas não há mais.

    • Pedro Gabriel disse:

      Doce Cecília. Reconcilie-se com seu povo, é preciso saber esconder o leite. Você me escreve muitas coisas que certamente retornarão em conversas futuras, mas me ocorre agora se não seria o caso de criares já um espaço seu para escrita e amarração do que tem que ser amarrado e queda do que tem que ser deixado de mão. Blog de analisante como esse meu. Beijos.

      • Caro escritor, se eu me reconciliasse com meu povo( agora vou ter que reler Moisés, freudiano), não estaria em exílo.Talvez o viés passe pelo pai. Hilda Hilst pontua que tudo que escreveu foi mostração ao pai de que ela era inteligente e não louca, tudo que ela temia. Formas de travessia. Obrigada pelo incentivo, quem sabe?

      • Pedro Gabriel disse:

        Cecília é sempre assim. O Pai está em tudo. Estava relendo “Carta ao Pai”, determinadas situações enernas e presentes me fizeram voltar a Kafka (emails não respondidos que ninguém sabe nem se seguiram). O Pai é quem tudo filtra, tudo sabe, tudo vê. Puxar o tapete do pai é tarefa que urge.

  2. Oi Pedro Gabriel,
    adorei seu site.
    Vou seguir você.
    Parabéns.
    Ione

  3. Pingback: História pra Mineiros de Todos os Estados | lituraterre

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