História pra Mineiros de Todos os Estados

Minas há em mim, há de modo total. Um fantasma mineiro me assombra desde minha já perdida infância me recordando que não pertenço aos baixios de uma cidade que esqueceu sua delicadeza nas montanhas. Um dos privilégios que tenho no blog e na vida é de ter como leitores muitos escondedores de leite que deixam nos comentários os seus trens especialíssimos que me alimentam a alegria e a escrita. Sobretudo para esses meus conterrâneos do espírito deixo essa graciosa história de um mineiro deparando-se com o mar. Em sua simplicidade, o texto (misto de conto e crônica) faz referência a um modo elementar de sabedoria fruto de quem conhece (mesmo desconhecendo) os perigos imensos dessa vida. Essa forma elementar de sabedoria dissolveu-se na proposta consumista e narcísica de uma cultura baseada na posse imediata de objetos ofertados a todo instante numa série infinita que ajunta o comprador, ao final da série, como mais um dos objetos. Em oposição a esse modo animalesco de vida (animalesco no sentido do pra onde aponta o fechamento da angústia quando a Técnica simula uma vocação “natural” humana voltada para uma certa felicidade, seja lá o que isso signifique) surge esse belo texto que nos alerta para o imenso perigo de se ter um desejo realizado.

HISTÓRIA DE MINEIRO (por Dinah Silveira de Queiroz)

Estou sabendo de uma historinha que bem valia um conto e feito por quem a narrou, o contista que anda arrebatando todos os prêmios dos concursos em que se inscreve: Edson Guedes de Morais. É um caso de mineiro. Trata de gente pobre e de filho que veio trabalhar no Rio, prosperou e um dia mandou uma carta ao pai:

Meu pai: com a graça de Deus, posso dizer que já tenho economia suficiente para pretender realizar qualquer sonho seu. Minha maior felicidade estará em poder propor : que possa fazer para alegrá-lo? 0 que mais desejaria na vida? Tenho pensado muito em sua luta de sacrificado e não me lembro de tê-lo ouvido falar sobre qualquer aspiração. Não se acanhe, papai, mande dizer se o senhor quiser alguma coisa.”

Lá da cidadezinha das Minas Gerais veio uma carta. Daquele homem religioso, devoto de Nossa Senhora Aparecida, austero, confiando nos seus deveres e trabalhos: o homem que jamais manifestara ao filho o seu desejo de possuir, por exemplo, um carro, ou ter um negócio só seu, ou, no mínimo, de adquirir uma lavadeira automática para desafogar o trabalho da mulher :

— “Meu filho, com a graça. de Deus, todos vão com saúde. Não me falta nada. Assim como vivo, vivo bem. Mas se você quiser saber de um desejo que sempre tive fique sabendo agora que toda a vida quis ver o mar. É só isso, meu filho, mais nada.”

Tão pouco lhe pedia o pai ! Mandou-lhe o filho a passagem, depois de ter escolhido um bom hotelzinho na Tijuca, freqüentado por gente de pequenas posses, mas pessoas escolhidas — só família, enfim. E o velho chegou com a alegria de ver o filho que realizara o que inúmeras gerações de sua gente não haviam conseguido: ter dinheiro sobrando. Vieram as efusões, as lágrimas. O primeiro dia passou, e, logo no segundo, o filho veio buscar o pai:

Papai, vista-se que eu vou levá-lo a Copacabana. Está na hora de realizar o desejo.”

0 velho olhou-o piscando meio trêmulo:

— “Hoje, não. Quero visitar a prima Carlota, que mora aqui perto. Amanhã eu vou”.

Chegou amanhã, e o pai, sempre tremendo e piscando, disse que não se sentia bem para ir a Copacabana. No terceiro e no quarto dias também, afirmou que não podia ir e que queria comprar uma lembrancinha para a mulher e para a filha. Alguns dias decorreram e o grande encontro entre o mineiro e o mar foi sendo protelado. Já, então, o filho estava meio triste com aquela estranha atitude do pai e, afinal, desabafou:

— “Parece que o senhor não está querendo mesmo ir ver o mar! Desde que chegou aqui não encontra um dia para realizar aquilo que afirmou ser o único desejo de sua vida!”

0 pai chegou a pegar o chapéu, passou a mão no ombro do filho mas estava tão perturbado, que desta vez, realmente, parecia doente.

— “Meu pai, o que é que o senhor tem? O que há?”

O velho mineiro, de olhos nublados, hesitou. Por fim, largou o peso da verdade de uma vez :

— “Acho uma coisa tão maravilhosa poder ir ver o mar que quero entregar a Nossa Senhora o meu sacrifício. Meu filho, não se zangue. Vou voltar hoje mesmo para casa sem ir a Copacabana”.

— “Mas por que, meu pai? Por quê? Nem Nossa Senhora vai aceitar esse seu sacrifício. Todo mundo vê o mar todo dia. Gente há que nem liga, passa pela praia e nem volta o rosto para ele…”

Mas, a essa altura, o velho já ia juntando os seus trens. Nesse mesmo dia voltou para sua cidade das Minas Gerais, levando em sua imaginação a idéia do abismo de assombro que ele jamais encontraria.

A paulista Dinah Silveira de Queiroz que tão bem reproduziu o mineiro sentimento nasceu na capital em 09/11/1910. Autora premiada da ABL iniciou na literatura em 1937 com um conto e em 39 com o livro “Floradas na Serra”. Em 54 é reincidente no Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra que cresceria em extensão, beleza e sobretudo reconhecimento dentro e fora do Brasil. A crônica acima foi extraída do livro “Quadrante 2”, Editora da Autora – Rio de Janeiro, 1968, pág. 13.

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Sobre Pedro Gabriel

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10 respostas para História pra Mineiros de Todos os Estados

  1. Idalio Bahia disse:

    Bem Pedro, muito bonito o conto e o seu texto é ótimo. Mas esse mineiro o vejo mais que mineiro… universal – algo como “o que desejo é não realizar meu desejo”, embora com nuances que vão certamente além…
    obrigado,

    • Pedro Gabriel disse:

      Concordo inteiramente contigo, amigo e conterrâneo Idalio. Esse conto então corrobora algumas intuições que tenho a respeito da arte e da vida, sendo elas: (a) o caráter profético de toda (boa) obra (de arte); (b) Mineiro é o protótipo universal do humano. Abraços e obrigado pela visita.

  2. Olá, Pedro.Fiquei desesperadamente torcendo para que o velho pai mirasse o mar.Vai dando maior aflição a cada mínima frase contada.Ele não o quer por temor á morte, ele não o quer porque não pretende reconhecer que o filho o suplantou, ele simplesmente desiste por emoção, por temor sei lá, vai que seu coração de velho não aguenta conhecer o mar… morrer alí, fora de seu heim….dar trabalho ou ele por ser religioso, entrega seu premio a sei lá qual nossa senhora. Será ela a dona de seu desejo.Interpretei minha aflição.Claro que a realização de desejo, é impossível e foi muito bem colocado por Idálio na ordem do universal e remete ao desejo articulável. Mas, fato curioso é a autora, Dinah, em pleno Brasilzão, reservar aos mineiros essa mineirice toda.É que mineiro morre pelo mar, porque não o tem.A alegria maior, porém,a ser sempre revelada e a cada vez construída, é saber que todos os trens cabem em seu embornal.Querido conterrâneo, fico muito feliz de ter podido participar desse seu sentimento mineiro da gema.

    • Pedro Gabriel disse:

      Cecilia, seu comentário engrandece minha postagem e lança um luzeiro inocultável da melhor luz, vinda do melhor juízo, para toda a minha vida. De fato por amor, ódio ou ignorância, por qualquer paixão o mineirinho culposamente decidiu sofrer. Inarticulável desejo também o nosso de Mineiros que sonham com um país delicado e organizado por laços de erudição e cordialidade. Também nós Cecília morreremos sem ver nosso mar pessoal. Beijos e agradecimentos infinitos por você ser uma coisa linda em meu blog e em minha vida.

  3. Fernanda do Valle Ramos disse:

    Fico cá pensando que, às vezes, o melhor mar é aquele que cada um pode ter em si. E de cá também penso que nossas montanhas nos ajudam a ampliar estes nossos horizontes. Afinal, elas existem em todos os brasileiros!
    Pedro, muito obrigada por nos brindar com tanta sutileza.

    • Pedro Gabriel disse:

      Rica Fernanda: Anseio de mar e saudades de montanha são sentimentos elementares que traduzem bem nossa condição. Mas não superestime esse grupo de nome “Brasileiros”, eles são capazes de decepcionar qualquer esperança. Agradeço sua visita e seus comentários. São presenças como a sua que me animam a, dia-após-dia, levar adiante esse projeto do lituraterre.

      • Fernanda do Valle Ramos disse:

        É. Talvez seja preciso mesmo uma medida melhor para uma generalização deste nome Brasileiros. É que sou uma pessoa otimitista e tendo muito a acreditar que em todos há algo a se desvendar.

      • Pedro Gabriel disse:

        Oi Fernanda, infelizmente a vida cotidiana em nossas cidades caóticas que crescem sem o mínimo ordenamento, nosso trânsito assemelhado a uma guerrilha, a incivilidade barulhenta de nossos conterrâneos e o descaramento de nossos líderes (todos eles, mas sobretudo os políticos) me tiram qualquer razão de esperança ou otimismo.

  4. Fernanda do Valle Ramos disse:

    Parabéns pelo blog. Muito interessante e bem bolado!

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