O Fantasma de Arcoverde

Arcoverde, ao longe, dissolvendo-se na lembrança

Um relâmpago me atinge bem agora em algum canto verde da alma. Chega um momento na vida de um homem em que ele simplesmente senta numa poltrona e se dá por recordar (Drummond again). O relâmpago é imagem desse movimento inevitável que des-esquece coisas dentro de nós iluminando cantos sombrios. Em meu caso o canto verde é referência à nova Olho d’Água dos Bredos. Verde é o que o tempo não fez infértil, é o chão rachado que não se fez abismo de secura. O relâmpago me faz olhar espantado e sentir saudades do que não mais existe. A cidade onde nasci é tão outra, tão diversa da que corri acelerado por entre uma e outra poça de lama sob a chuva de setembro, limpando a rinite com o braço esquerdo e apertando meus olhos prematuramente cansados de tanta vida. A venda, a banca, a praça, a velha casa, o quintal, a amendoeira, a avenida que se entorta na frente do Hotel, a padaria com seus sonhos, o cheiro de mofo das cadeiras do cinema. Nada mais está. A velha revolta eternamente remoída, a amizade caída no vazio, fantasma de meu pai, noites frias e sem beijos, a incompreensão familiar. Também isso não está. Tantas ruas que hoje contemplo apenas em sonho entrecortadas por tantas outras turvas imagens. O palco onde aprendi que precisava aprender a ser gente já não existe para a encenação da peça que não se encenou. O tempo passou sem que me pedissem autorização para mudarem minha infância, para que falecessem aqueles a quem devia perdão, para destruírem a velha casa, para calçar as ruas por onde me perdia abismado no assombro do que não entendia.  Em minha lembrança jaz assombrosa-mente, qual cadáver de um antigo amor espalhado aos pedaços pelos cantos da casa, a cidade vista ao longe bem de longe. Do passado ficaram as palmas de um deserto que a poesia me ensinou a amar e perdoar. Fica também a lembrança da luta diária travada pelo calor do Pajeú contra a brisa suave do Moxotó e todas as lutas travadas interiormente em busca de uma grandeza que nunca chegou. Em Arcoverde todas as ladeiras foram aplainadas, qual o quê…. no mundo todo tem sido assim. Arcoverde não mais está… mas não obstante… reluz ao longe como a corola sagrada de minha aurora.

UMA COROLA (por Ferreira Gullar)

“Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho queimado
metálica.

Não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
da sala
ou na janela.

Não cheira
não atrai abelhas
não murchará.
apenas fulge
em alguma parte alguma
da vida.”

(Ferreira Gullar em “Em Alguma Parte Alguma”, pela Ed. José Olympio p. 43)

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Sobre Pedro Gabriel

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4 respostas para O Fantasma de Arcoverde

  1. É a noção a cada dia que mundo deixa um pouco mais de ser teu, até um tempo onde veremos apenas memórias.

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