Caminho de Casa

Sinto um ardor de amante pelo caminho que me leva à cidade onde nasci. Percorri tal caminho, transido de amor macio, durante as festas do Filho de Isabel – festa das fogueiras e luzes – em busca de alguma chama da perdida infância que porventura ardesse ainda. Nas veredas percorridas no intenso caminho interior que foi minha difícil vida de menino de aquário, encontrei as sombras dos velhos fantasmas que o tempo me ensinou a atravessar. De longe, entretanto, me espreitam todos eles: o cheiro de romã das árvores da escola, a terra que desprende seu odor de camélia ante o erótico beijo da chuva, a casa 241 com sua janela para a rua cheia dos idos amigos, a casa 357 com seu terraço largo de solidão onde minha voz era ouvida em eco na condição de exilado que nunca não vivi, a mão do amigo melhor, a notícia da primeira amada, o complexo e faltoso quebra-cabeças familiar, as noites do Sertão. Diante do para-brisa toda a inquietante possibilidade do caminho das Serras: com suas pontes, túnel e riscos imaginários. Ao final desse caminho um paraíso feito de um amálgama esponjoso de sonho, linfa, nuvem e noite dentro de uma boca de dois mil dentes a rir, gritar e mastigar com muita saliva um passado que não se dissolve. Na arca da memória velhos signos selados e isentos da poeira do esquecimento povoam o fundo do baú e da vida: velhos significantes que supõem-se incontornáveis e que a seu tempo conhecerão o giro dos discursos e a forma não cristalizada. Em casa não sentimos frio, não sentimos dor, a noite é mansa e a morte não nos escolhe. Em casa dorme-se novamente no seguro do berço e qualquer traje é fina roupa de um baile que está sempre a acontecer sob a lua que acarinha o rosto branco dos que regressam. O clube da infância, os antigos compromissos, os elos desfeitos, o amor que não se cumpriu: tudo o que era mentira por verdade, como raízes da culpa e do descontentamento, por um breve instante brotam desse solo de associações e podem ser por fim arrancadas. O grave frio dos medos nos espreita sempre a demandar a coragem de uma travessia que não termina nunca. Regressamos por isso, para a eterna tarefa de recordar a distância do ponto de chegada, para o enfrentamento do que se recusa à reinvenção, para tornar transitável qualquer caminho: o do regresso e o do porvir. Num instante de compreensão infinita, pelo mesmo para-brisa, olho meu berço iluminado pelas lamparinas. Charuto, piano e paz são sinais de que pude ir além: que pude não ser devorado. Rio. Eu rio. Eu sigo. Sigo na eterna travessia que destitui os fantasmas da claudicância. E na minha canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras e de miragens as mais variadas, também eu: rio abaixo, rio a fora, rio a dento… riverrun…

 

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Sobre Pedro Gabriel

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2 respostas para Caminho de Casa

  1. Fernanda do Valle Ramos disse:

    O reencontro com a casa de antes nos faz estrangeiros em nós mesmos. Parabéns, Pedro, pelo lindo texto! Abraços, Fernanda.

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