O Rio (por João Cabral de Melo Neto)

João Cabral de Melo Neto

De uma recitação fluente e ritmada como o é o fluxo do rio, apresento João Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas de nosso e de todos os idiomas. Cabral é duro como a Pedra que sempre cantou. Dono de uma impertinente dor de cabeça que (em caráter emblemático) só o deixaria dormir em paz após a amputação de um certo “nervo vago”, foi um pretendente ao anti-lirismo. O que o salvou (e a nós também seus leitores) é o fato de que (também como nós) Cabral era um enorme mentiroso e ludibriava (daí a nobreza dos bons enganadores) antes a si que aos outros. Excelente amostra do lirismo escondido como uma velha e já ressecada flor dentro de um volumoso livro de recordação está esse fragmento (narrado pela sua própria voz) onde demonstra seus lampejos de  lirismo atônito diante do estômago impiedoso das usinas, do despretensioso do chão que se desprende do doce alimento e das demais coisas que vão se constituindo em paisagem no curso constante do rio onde suas águas interiores traçam curso. Diante de tudo o que se acena com estômagos famintos em anseios de devoração surge a poesia. O rio-poesia. Assim se deu com Cabral, Bandeira, Rosa e todos os outros que não se permitiram afogar. Aqui segue um poema orgânico que simplesmente não pode ser lido/ouvido de modo selvagem ou inadvertido: há um caudaloso rio dentro de si. Abaixo, na representação do espectro sonoro, podemos ver o padrão de repetição ritmica dando ao registro (expresso na concretude de seu momento material) a forma de uma espinha de peixe. O rio respira, o poema idem, e as espinhas desse peixão-poema cravam-se em nossa carne fazendo-nos navegar interiormente. Este fragmento que se pertendia seco como o chão rachado de nosso sertão é na verdade úmido e materno como o rio que ele mesmo canta. O poema respira por pulmão próprio e a narração do autor ajuda a desmascarar seu falso véu de seu suposto não lirismo radical.

O Rio [Escrito e Narrado por João Cabral de Melo Neto] by lituraterre

 

O RIO [fragmento]
“Até este dia, usinas
eu não havia encontrado.
Petribu, Muçurepe,
para trás tinham ficado,
porém o meu caminho
passa por ali muito apressado.
De usina eu conhecia
o que os rios tinham contado.
Assim, quando da Usina
eu me estava aproximando,
tomei caminho outro
do que vi o trem tomar:
tomei o da direita,
que a cambiteira vi tomar,
pois eu queria a Usina
mais de perto examinar.

Vira usinas comer
as terras que iam encontrando;
com grandes canaviais
todas as várzeas ocupando.
O canavial é a boca
com que primeiro vão devorando
matas e capoeiras,
pastos e cercados;
com que devoram a terra
onde um homem plantou seu roçado;
depois os poucos metros
onde ele plantou sua casa;
depois o pouco espaço
de que precisa um homem sentado;
depois os sete palmos
onde ele vai ser enterrado.

Muitos engenhos mortos
haviam passado no meu caminho.
De porteira fechada,
quase todos foram engolidos.
Muitos com suas serras,
todos eles com seus rios,
rios de nome igual
como crias de casa, ou filhos.
Antes foram engenhos,
poucos agora são usinas.
Antes foram engenhos,
agora são imensos partidos.
Antes foram engenhos
com suas caldeiras vivas;
agora são informes
partidos que nada identifica.

Mas nas Usina é que vi
aquela boca maior
que existe por detrás
das bocas que ela plantou;
que come o canavial
que contra as terras soltou;
que come o canavial
e tudo o que ele devorou;
que come o canavial
e as casas que ele assaltou;
que come o canavial
e as caldeiras que sufocou.
Só na Usina é que vi
aquela boca maior,
a boca que devora
bocas que devorar mandou.

Na vila da Usina
é que fui descobrir a gente
que as canas expulsaram
das ribanceiras e vazantes;
e que essa gente mesma
na boca da Usina são os dentes
que mastigam a cana
que a mastigou enquanto gente;
que mastigam a cana
que mastigou anteriormente
as moendas dos engenhos
que mastigavam antes outra gente;
que nessa gente mesma,
nos dentes fracos que ela arrenda,
as moendas estrangeiras
sua força melhor assentam.

Por esta grande usina
olhando com cuidado vou,
que esta foi a usina
que toda esta mata dominou.
Numa usina se aprende
como a carne mastiga o osso,
se aprende como mãos
amassam a pedra, o caroço;
numa usina se assiste
à vitória, de dor maior,
de brando sobre o duro,
do grão amassando a mó;
numa usina se assiste
à vitória maior e pior,
que é a da pedra curta
furada de suor.

Para trás vai ficando
a triste povoação daquela usina
onde vivem os dentes
com que a fábrica mastiga.
Dentes frágeis, de carne,
que não duram mais de um dia;
dentes são que se comem
ao mastigar para a Companhia;
de gente que, cada ano,
o tempo da safra é que vive,
que, na braça da vida,
tem marcado curto o limite.
Vi homens de bagaço
enquanto por ali discorria;
vi homens de bagaço
que morte úmida embebia.

E vi todas as mortes
em que esta gente vivia:
vi a morte por crime,
pingando a hora da vigia;
a morte por desastre,
com seus gumes tão precisos,
como um braço se corta,
cortar bem rente muita vida;
via morte por febre,
precedida de seu assovio,
consumir toda a carne
com um fogo que por dentro é frio.
Ali não é a morte
de planta que seca, ou de rio:
é morte que apodrece,
ali natural, que visto.

Agora vou deixando
a povoação daquela usina.
Outra vez vou baixando
entre infindáveis partidos;
entre os mares de verde
que sabe pintar Cícero Dias,
pensando noutro engenho
devorado por outra usina;
entre colinas mansas
de uma terra sempre em cio,
que o vento, com carinho,
penteia, como se sua filha.
Que nem ondas de mar,
multiplicadas, elas se estendiam;
como ondas do mar de mar
que vou conhecer um dia.”

(por João Cabral de Melo Neto)

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4 respostas para O Rio (por João Cabral de Melo Neto)

  1. Há muito tempo, havia um rio? distante a cidade.Lembrança de pic-nic, toalha xadrez e família.E todos se alegravam e a infância se agarrava aos sabores das quitandas.Rio de Peixe! Só posso retribuir, colocando poeta com poeta:
    A Ponte de Mantes (Corot)
    Assim quisera eu ser:
    ponte árvore canoa água serena
    ignorante de tudo mais bem longe.

    Haikai, Drummond

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