Dois depoimentos sobre a lágrima nordestina

Torquato Neto, Caetano Veloso e Capinan, a trindade tropicalista.

Toninho Vaz (“Pra mim chega: a biografia de Torquato Neto” – Ed. Casa Amarela)
[Em 1979] (…) “, Caetano compõe e grava Cajuína, escrita depois de uma visita a doutor Heli, em Teresina, que lhe deu a rosa pequenina colhida no jardim da casa, na Coelho de Resende. Sobre esse encontro, doutor Heli diria: “O rapaz chorou muito aquele dia”.”

Caetano Veloso (“Verdade Tropical” – Ed Companhia das Letras)
“Numa excursão pelo Brasil com o show Muito, creio, no final dos anos 70, recebi, no hotel em Teresina, a visita de Dr. Eli, o pai de Torquato. Eu já o conhecia pois ele tinha vindo ao Rio umas duas vezes. Mas era a primeira vez que eu o via depois do suicídio de Torquato.

Torquato estava, de certa forma , afastado das pessoas todas. Mas eu não o via desde minha chegada de Londres: Dedé e eu morávamos na Bahia e ele, no Rio (com temporadas em Teresina, onde descansava das internações a que se submeteu por instabilidade mental agravada, ao que se diz, pelo álcool).

Eu não o vira em Londres: ele estivera na Europa mas voltara ao Brasil justo antes de minha chegada a Londres. Assim, estávamos de fato bastante afastados, embora sem ressentimentos ou hostilidades. Eu queria muito bem a ele. Discordava da atitude agressiva que ele adotou contra o Cinema Novo na coluna que escrevia, mas nunca cheguei sequer a dizer-lhe isso.

No dia em que ele se matou, eu estava recebendo Chico Buarque em Salvador para fazermos aquele show que virou disco famoso. Torquato tinha se aproximado muito de Chico, logo antes do tropicalismo: entre 1966 e 1967. A ponto de estar mais freqüentemente com Chico do que comigo. Chico eu eu recebemos a notícia quando íamos sair para o Teatro Castro Alves. Ficamos abalados e falamos sobre isso. E sobre Torquato ter estado longe e mal.

Mas eu não chorei. Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental. Quando, anos depois, encontrei Dr. Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durantes horas, sem parar.

Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava.

Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.”

Abaixo um vídeo da turnê “Noites do Norte” onde foi executada “Cajuína.” Atentem para a virtuosa execução do solo pelo violoncelista Jacques Morelenbaum

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Sobre Pedro Gabriel

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4 respostas para Dois depoimentos sobre a lágrima nordestina

  1. A vida é algo maravilhoso.

  2. Fernanda do Valle Ramos disse:

    Por vezes não nos damos conta das histórias por detrás das obras.
    Eu não quero ser regionalista, mas acho que vocês das bandas de cima têm uma fineza de sensibilidade ímpar!
    Meu abraço mineiro conjuga com Carlos, mas (ainda) insiste na esperança de algo mais leve.
    Com carinho,
    Fernanda do Valle Ramos.

    • Pedro Gabriel disse:

      Fernanda, o fato de eu ter nascido em pernambuco não torna meu coração menos mineiro. Sou das bandas do meio, como Fernanda do Valle, Clarlos Drummond, Fernando Sabino, Affonso Romano, Idalio Bahia, Cecília Viana. Só gente boa. Preciso mesmo voltar pro berço onde nunca deitei.

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