O Rio (por Manuel Bandeira)

Rua da Aurora, no bairro da Boa Vista no Recife. "Rua do rio", onde residiu o poeta Manuel Bandeira em parte significativa de sua vida.

Abaixo apresento aos meus leitores um outro rio. Não o rio espinha de peixe com padrão duro de poeta pretensa e mentirosamente anti-lírico, mas rio caudaloso de lirismo sobressalente e assumido. Em seu “Poética”, Manuel Bandeira se diz farto do lirismo comedido e bem comportado apelidado ironicoepifanicamente de “lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor”. Abaixo purismo vernáculo com rigidez lexográfica, mas sobretudo abaixo o lirismo sifilítico e namorador que transforma inadequadamente a poesia em ideal de vida, normas de conduta, bons exemplos ou orvalho de amantes transidos, fora de si. Trago então uma sublime amostra do melhor lirismo de Bandeira, que tem traços do lirismo louco e bêbado dos clowns de Shakespeare (como a isto se pretendia declaradamente), mas também vestígios do comedimento estóico de quem sabe que a vida e a poesia exigem de nós um trabalho interior de saber conduzir nossa nau por entre as correntezas dos diversos panoramas, confortáveis ou indelicados, que o cotidiano nos coloca. Nesse rio de Bandeira, também aqui, a diagramação do espectro sonoro presta-se a uma metáfora interessante: rio é a inexorável força da vida: intranquila, imprevisível, sem padrões e com variações inusitadas e bruscas, repleta de contramarchas e convocações a tomadas de lado em relação ao que se apresenta de exigente todos os dias. “Toda poesia é sinal de menos”, sentencia Drummond em seu “poema-orelha”. Se vida, assim como a poesia, é também sempre sinal de menos a nos subtrair coisas, é o rio a grande chance de reposição, de preencher novamente os sulcos das imemoriais perdas que, mesmo sem nunca as termos possuído de fato, não obstante não cessamos de não deixar de saudosá-las. Rio é onde inicialmente bioamos no mar da história que se perde no tempo denunciando nossa funadmental vocação. Flutuando no rio, inicialmente a esmo, somos convocados a fazer da vida (essa massa fluida e turva que no fim das contas nada significa) algo onde é possível navegar e pescar. Aqui o poema escolhido é um par de quadras de valor estético exorbitante de doçura e maturidade nos convocando a uma atitude de serenidade em relação ao que da vida não é possível mudar, mas contornar. O poema sugere uma impressionante saída: usar o rio não como rota de fuga, mas como elemento de identificação. “Ser como o rio” é acatar o que há de incontornável e jogar com as mão que temos. Navegar esse rio que somos é sobretudo aventurar-se pelas sinuosas e terríveis paisagens interiores que tantos se recusam em nome desse narcisismo ardente e fátuo que faz com que nos pensemos sempre como anjos e deleguemos ao outro a posse do erro. Acessar essas paisagens, navegar o rio que somos nós, é a suprema viagem que experiências como a Psicanálise e apreciação estética das belas obras promovem. Viagem que é antes de mais nada uma a coragem que o filósofo Riobaldo afirmava ser o que o rio-vida (em suas demandas reais e praticas) exige de nós: coragem. Bandeira complementa: coragem de navegação.

O RIO

“Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.”

(por Manuel Bandeira)
O rio [Escrito e Narrado por Manuel Bandeira] by lituraterre

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5 respostas para O Rio (por Manuel Bandeira)

  1. A foto da Rua do Rio é linda e, vejo que você tem mesmo coragem prá navegar.Seu escrito-tormenta-elaboração, ficou muito bom, dando notícias de seu desejo,do temor e da esperança que devem sempre habitar seu espelho dágua.Parabéns, é muito bom te ler.
    Deixo um pedacinho de poesia-Manoel de Barros, Matéria de poesia.
    “Madrugada esse João
    Botou o rio no bolso e saiu correndo…
    Pega! Pega!

  2. Pedro riu!!
    Todo rio, deságua num mar
    Todo mar
    Tanto (a) mar.

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