Boiação (por Fernando da Mota Lima)

O homem nasceu para boiar. Imagino o homem em estado primitivo, anterior a esse espantoso acervo de invenções  e desenvolvimentos que se chama civilização ocidental. Vivendo então suspenso entre as águas paradas e a sombra das mangueiras, o homem prazerosamente descansava como uma força inútil da natureza. Sua felicidade primária, derivante dessa espontânea integração no seio dos elementos, exprimia-se no enlace concordante entre desejo e satisfação, entre a pobreza da imaginação desejante e a realização efetiva do desejo imaginado.

O fator de ruptura dessa ordem de harmonia primária intervém com a figura mítica de Mefistófeles. Seduzido pela magnitude das possibilidades que este lhe descortina, cede o homem à tentação da conquista expansiva e se levanta da rede espantando e esmagando sob as botas civilizadoras a saúva e o formigueiro da roça.

Destacando-se da natureza, o homem rompe a cadeia da repetição alçando-se à categoria de agente dominador da ordem natural. O trabalho, que fora uma pausa necessária entre o descanso e a preguiça, converte-se em alavanca de transformação da natureza assegurando a acumulação de bens e de tecnologia posta a serviço da dominação dos meios naturais e sociais. Ao suspender seu estado de boiação sobre as águas e desatar o punho da rede em que improdutivamente se balançava, o homem ata o punho do seu semelhante ao trabalho escravo instituindo assim a injusta divisão social da produção e do usufruto dos bens.

Empenhado nessa lenta progressão civilizatória, passa o homem a exaltar as virtudes do trabalho, sobretudo do semelhante a quem explora, condenando o ócio e a preguiça. Em suma, tendo nascido para boiar, o homem se rebela contra sua boiação originária e represa as águas para gerar energia elétrica. Foi assim que se divorciou da sua natureza aquática, diplomou-se em engenharia de minas e energia e inventou a psicanálise para boiar sobre as molas analíticas de um divã. E daí passou por uma perna de pinto, entrou por uma perna de pato. Senhor rei mandou dizer que nadasse quatro.

Fernando  da  Mota  Lima.

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Fernando da Mota Lima é professor da Universidade Federal de Pernambuco, um brasileiro inautêntico (como eu, não praticante das contravirtudes brasilianistas), um leitor autêntico e um dos seres humanos mais extraordinários que já conheci. Ele é poema de Drummond musicado por Jobim. Para conhecê-lo clique aqui: Literatura e Crítica Cultural.

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Sobre Pedro Gabriel

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