Shakespeare: o próprio cofre de chumbo

Shakespeare é sem dúvida uma das maiores descobertas de minha vida. Dentre todas as construções humanas desde a utilíssima roda até a subutilizada internet (que nos dotou de uma irrestrita capacidade comunica- tiva independente- mente de haver o que ser comunicado) a mais extraordinária é, possivelmente, a sua obra imensa. Talvez como em nenhum outro autor, a obra de Shakespeare (controversamente indexada em 150  irretocáveis sonetos e 36 extraordinárias peças) comporta o mundo. Mais que isso: é nela onde encontramos a fundação do humano. Na antiguidade grega o que chamamos de homem estava diluído no mundo da natureza e a tarefa fundamental da filosofia era a de compreender sua dimensão na determinação do homem. Se há ou não movimento, qual a extensão do tempo ou a matéria da qual teria resultado todas as coisas (indagações que marcaram o princípio da Filosofia) são questões bem distintas daquelas que nascem após o “To be or not to be, that’s the question.” da abertura do 3º. Ato do Hamlet Shakesperiano. Mais do que autorar um estilo, Shakespeare reforma a humanidade ao tornar possíveis questões sobre existência, identidade e sobretudo o destino individual de um homem (tornado indivíduo) largado pelos deuses ao sabor do caos que constitui sua própria sorte (e não mais dos caprichos dos dados de Zeus ou dos previsíveis castigos divinos do medievo). Na Idade Média (que Shakespeare encerra com o peso de sua pena) o homem ocupava um lugar acessório no mobiliário do mundo de então: um imenso teatro mágico de bruxas, santos e obras extraordinárias tornadas ordinárias. Na cosmologia de então não havia autonomia atribuída ao homem. Essa ausência de um destino individual é o que irmana o período clássico ao medievo. Lembremos que pelo pecado de Édipo toda a Tebas sucumbiu assim como, no imaginário vindouro da Idade Média, pelo pecado de Adão todos padeceram. Em Shakespeare, ao contrário, vemos os delitos de Macbeth, o assassínio do Rei Hamlet por Cláudio ou os deslizes de Puck, o elfo, ao executar as ordens de Oberon, gerarem tédio, culpa e sangue em nível individual de modo que é aqui inaugurada a índole que possibilitará o advento dos vindouros Dom Quixote, Clarissa Daloway, Leopold Bloom, Gregor Samsa, Humbert Humbert, Meursault (o pied-noir de Camus) e tantos outros. Por essa transformação operada (a que Harold Bloom chamará de “Invenção do Humano”), mais do que qualquer aparato tecnológico ou trabalho artístico a obra de Shakespeare faz o homem repensar-se e atribuir-se coisas até então desconsideradas. Sua obra comporta um ato inaugural e fundador do que hoje somos e do modo como nos situamos no diante do mundo, do outro, da natureza.

Outrossim, para além dessa reviravolta causada, seus sonetos e peças teatrais têm um valor estético insuperável. Mestre da palavra, acompanhar seu raciocínio é pisar as pegadas de um gigante. São estes os dois principais motivos pelos quais minha vida (e a de todos os leitores do Grande Bretão) se tornou indelevelmente marcada por suas belas imagens. Como letra escarlate, seus ditos vibram em meu coração como uma das principais referências humanísticas e estéticas de todas as coisas jamais escritas ou de todas as produções jamais executadas pelo intelecto humano. Um breve exemplo disso está no Enigma de Pórtia presente em “O Mercador de Veneza”: Aragão, Bassânio e o inominado prícipe do Marrocos se vêem diante da incumbência de escolher dentre alguns cofres (um de outro, outro de prata e um terceiro de chumbo) aquele que conteria as chaves do matrimônio com a rica e bela herdeira de Belmonte. Em cada uma das urnas em forma de arca há um símbolo e um dito. No primeiro cofre, o de chumbo, encontra-se: “Quem me escolher deve dar e arriscar tudo que tem.” O de prata assegura: “Quem me escolher conseguirá aquilo que merecer”. O de ouro assevera: “Quem me escolher ganhará o que muitos desejam”. Nenhum candidato sabe da escolha do outro e somente um baú representa a escolha adequada. Antes de escolher a arca de chumbo (desprezando o ouro e a prata que contém em seus bojos uma pilhéria e uma réplica de um bobo) Bassânio justifica sua escolha:

“Bastantes vezes a aparência externa carece de valor. Sempre enganado tem sido o mundo pelos ornamentos. Em direito, que causa tão corrupta e estragada, não fica apresentável por uma voz graciosa, que a aparência malévola disfarça? Praia traiçoeira é o ornato, por tudo isso, de um mar mui perigoso, linda charpa que esconde o rosto de uma bela indiana; em resumo: aparência da verdade, de que se vale o tempo experto, para colher até os mais sábios. Assim sendo, brilhante ouro, de Midas duro cibo, nada quero de ti, como não quero também de ti, intermediário pálido e vulgar entre os homens. Minha escolha recai em ti, em ti, modesto chumbo, que mais ameaças do que prêmio inculcas. Tua lhaneza é a máxima eloqüência. Seja pois alegria a conseqüência.”

Shakespeare reside em minha concha. É um dos companheiros silenciosos que povoam meu cubo de trevas falando-me dos segredos de nossa condição. É um eterno convite a uma visão mais apurada e mais serena do que não podemos e do que não somos. Nessa atmosfera narcísica em que residimos onde as pessoas celebram incontida e alienadamente o prazer e a felicidade (como se fossem experiências possíveis de serem vividas a todo instante), quando as pessoas dissipam-se numa produção de massa a que chamam de Cultura e na construção de um corpo reluzente, anorexico e cada vez mais igual aos demais, Shakespeare (como Bassânio) nos convida a examinarmo-nos a nós mesmos e aos baús que escolhemos para filtrar nossas rápidas vidas estreitadas contra o vulto daquilo que fragilmente cremos. São as tais delícias inaproveitáveis dos anjos. Shakespeare, assim como Bandeira (e também Freud, Lacan, Drummond, Jobim e todos os autores que se apoiaram naquilo que a condição humana tem de inconciliável e irreparável) nos traçam a rota da suprema delícia: a de poder sentir as coisas mais simples.

Addendum: ainda sobre o Mercador de Veneza recomendo com ênfase o belo filme homônimo de Michael Radford, de 2004, com uma brilhante atuação de Al Pacino. Com cenas belíssimas e um roteiro muito digno, a trilha sonora composta por Jocelyn Pook é um espetáculo paralelo dessa bela obra que merece ser apreciada.

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Sobre Pedro Gabriel

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2 respostas para Shakespeare: o próprio cofre de chumbo

  1. Marijô disse:

    Você acertou.Belo seu texto! Mais aprendi ( de mim mesma, do outro, da força da fragilidade humana) seguindo os rastros de suas observações e reflexões sobre o grande mestre Shakespeare. E rever O Mercador de Veneza do Radford.

    • Pedro Gabriel disse:

      Mais uma vez agradeço pelas generosas apreciações dos meus humildes comentários sobre as obras imortais, aquela que nos reconciliam com nossa condição e geram em nós alegria não passageira.

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