Palavras de Passarinho

vida1

Do latim vita, vida é um conceito que herda a complexidade do fenômeno ao qual se refere: difícil de se definir, difícil mesmo de se determinar seus contornos suficientes e necessários. Seguindo as definições clássicas (de movimento, metabolismo e interação com o meio) uma estrela ou um vulcão estariam tão vivos quanto você ou eu. Tal peculiaridade conceitual, se por um lado resulta num embaraço para a Ethologia e as demais ciências evolutivas, não o é em absoluto para a literatura que não encontra problemas em supor vida fora dos corpos: para Guimarães Rosa o Sertão é uma coisa viva, um imenso organismo que dispara jatos de encanto, alheiamento e sulcos de travessia. Também para nosso Rosa um Grande Rio não carrega fado existencial menor que o nosso: “… amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muitos vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens” (oh beleza). Ainda retornando à Ethologia (assim mesmo com “E” capitulado e “h” de distinção para salientar a seriedade e nobreza de tal conhecimento), Maturana, um dos mais célebres expoentes do ramo latino da videira, cria o conceito de autopoiesis para tentar encerrar (sem qualquer poesia) esse embaraço acerca do “afinal, que coisa é a vida?”. Conforme esse autor (e mais uma constelação de outros tantos gravitando em sua órbita) vivo seria qualquer ser que gerasse em si um sistema autopoiético, ou seja, que produzisse a si mesmo em termos de uma rede (ou teia) fechada de processos moleculares onde tais moléculas produzidas (por meio de suas interações intrínsecas) são também produtoras da mesma rede de moléculas que as produziu. Ou seja, nulopoeticamente, a autopoieses sugere que a vida (em algum nível, ao menos o da definição) é uma complexidade ensimesmada, algo cíclico que se produz. Prefiro um outro conceito que aqui batizo de heteropoiesis, vida é o que frutifica, é o que produz mais vida, o que interpela a um outro não completando-o, senão fazendo-lhes o furo que dá o movimento. Se assim o for, neste final de semana este blog se soube finalmente vivo e se já cumpria bem sua função (tal como verifico prazerosamente nos gentis agradecimentos que recebo) ele agora a transcende. Este blog pariu um outro. Uma de minhas leitoras acaba de criar seu maravilhoso Palavras de Passarinho que nasce na blogosfera com a fragilidade de uma ave que acaba de sair do ovo, mas que já carrega em potência todas as melodias etéreas e uma notável vocação alada. O capinar é sozinho, diz Guimarães Rosa, e nesse ato estão implícitos todos os investimentos para que a vida perfure o asfalto e brote em forma de flor, ave ou um pouco mais de amor dirigido à vida, talvez por isso a colheita é o comum. Colho com alegria essas Palavras de Passarinho que em apenas duas postagens contém parcela significativa do mundo e seus desafios. Convido, pois, os meus leitores, para ir comigo passarinhar no quintal dessa Pérola que surge e que em nosso alçapão caia mais vida: que nossa boca coma vida, se entupa de vida, que vida nos escorra da boca, lambuze mãos e calçada: vida gorda e oleosa (Drummond). Então, depois de nos tornarmos também passarinhos, somente “…Então, meu coração também pode crescer. Entre o amor e o fogo, entre a vida e o fogo, meu coração cresce dez metros e explode. — Ó vida futura! nós te criaremos” (Drummond).

Eis, para nosso deleite e visitas, o blog que nasceu dos países imaginárias e das ilhas para onde nossa letra ousa fugir: http://palavrasdepassarinho.blogspot.com.br/

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Sobre Pedro Gabriel

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