Merda! Sou lúcido. (por Fernando Pessoa)

Cruzou Por Mim, Veio Ter Comigo Numa Rua da Baixa [Fernando Pessoa narrado por Jô Soares] by lituraterre

Álvaro de Campos, pormenor do mural de Almada Negreiro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1958)

CRUZOU POR MIM
(por Fernando Pessoa na casca de Álvaro de Campos)

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar…),

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa,
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida, –
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser , enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso sempre.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a Humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão para isso supor.

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoiévski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado da vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei, Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

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Sobre Pedro Gabriel

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4 respostas para Merda! Sou lúcido. (por Fernando Pessoa)

  1. Cara, acho esse poema sensacional desde que descobri ele lá pelas 8ª série, faz um tempo, talvez meu favorito de Pessoa. O heterônimo sem dúvida é o que mais gosto. Nossa obrigado pela lembrança estava precisando revê-lo.

  2. Carolis disse:

    Papapapalmas!

    “Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!”

    Também agradeço.

    Lembrei da época em que os carros não dispunham de ar-condicionado e as crianças pedintes do sinal se agarravam nas nossas janelas com o semblante das crianças de rua. Meu pai se irritava com a insistência dos pequenos por qualquer trocado e eu, no auge do meu luto infantil, certo dia tomei coragem e retruquei: “Você não sabe o que ele passa para estar aqui pedindo!”.

    Têm somente poucos anos que me dei conta que ali, simbolicamente, me identificava com eles; aqueles vadios e pedintes.

    • Pedro Gabriel disse:

      Ana Carol, Ana Carolis, Caroliz no Peito, CarolImpressionante, a imensa maioria da gente que lota essa lastimável cidade, a grande boiada, farta-se interiormente ao encontrar um pedinte por ser uma ocasião de atualizar a tal dialética do Senhor e do Escravo de que nos falava Hegel. As pessoas sentem-se superiores e automaticamente emulam o pior dos sentimentos: a compaixão (aquele sentimento unilateral, vivido de cima pra baixo, que nega que também nós somos ridículos e humanos). Ao contrário deles, gente como nós se sente imediatamente vadios e pedintes. Seu comentário valoriza meu blog e me traz companhia.

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