Ai de ti, ó velho mar profundo…

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“O Monstrengo”, óleo sobre a tela de Carlos Alberto Santos inspirada no poema homônimo de Fernando Pessoa

Após as três derrotas sofridas na concorrência por uma desejada vaga na ABL (em todas elas perdendo a indicação para poetas sem poesia pelo dedaço de algum agente político), Quintana escreve seu Poeminha do Contra. Acossado por jornalistas sem notícia que insistiam em colocar o dedo na ferida o grande alegretense repete seu movimento de transformar a matéria dolorosa da vida no mel da poesia afirmando que concorrer três vezes ao pleito era a maneira que tinha para transformar em cômico o que seria um incômodo trágico: perder a vaga uma vez é uma tragédia, mas ser negado três vezes era uma deliciosa piada (diz sem pudores o poeta). Seu sonho, no entanto, se cumpriu. Cumpriu-se docemente ao obter a sua “imortalidadezinha” (tal como aspirou em uma de suas outras divertidas falas) no apreço e admiração resoluta de seus pares, sentimentos paradigmaticamente expressos na saudação feita por Augusto Meyer e Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras na forma do Quintanares (poema escrito pelo último deles e recitado efusivamente na Academia). Cumpriu-se formidavelmente sua perenidade sobretudo na forma como habita, caudaloso, no coração dos leitores mais sensíveis que fazem da poesia um percurso aberto para a compreensão de suas paisagens interiores. Com leveza, simplicidade e lirismo incomparáveis, Quintana vive hoje no que escreveu, sorri e fuma na rota que nos fornece para que possamos contornar as sucessivas mortes que nos espreitam todos os dias. O leitor que deseja a vida deverá, necessariamente, cruzar pelo Quintana, imortal sem fardão. Michel de Montaigne disse, certa feita, que filosofar é aprender a morrer. Quintana certamente poderia ter dito que poetar é engabelar a morte, seguir vivendo, cumprir o inevitável ciclo de sucessivas quedas e levantes sem os quais não se faz a vida. Para auxiliar na manutenção da “imortalidadezinha” de Mario, o Instituto Moreira Salles recebeu e mantém acomodado com requintes de tecnologia a biblioteca e os manuscritos de Mario Quintana. Seus cadernos de poesia, listas e anotações (boa parte delas não suficientemente amadurecidos para serem publicados, mas ainda assim joia preciosa para seus leitores) podem ser consultados em uma visita ao Instituto. Abaixo uma das pepitas que podem ter o prazer de serem lidas na caligrafia do poeta em uma visita ao IMS. Ai de ti, ó velho mar profundo. Nada podes contra nós. Quintana não somente se imortalizou, mas deixou-nos o segredo eterno da morte que em nós quer viver.

A Carta - Quintana

A Carta, por Mario Quintana (imagem recortada do video do acervo cujo link está no corpo do texto).

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Sobre Pedro Gabriel

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