Tempo de Carnaval, Restos de Cronos

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Herdamos dos gregos (na leitura que deles fizeram os filósofos do medievo) a noção que guardamos de tempo e seus atributos necessariamente quantificáveis, métricos, mensuráveis. No dia-após-dia, residência do tédio conforme o Rei Macbeth, o tempo transcorre como coisa material que se perde e se gasta, imagem cuja metáfora primordial é uma ampulheta com seus grãos de tempo estreitando-se no fugaz orifício do presente na sua passagem do passado para o futuro (vetores de uma arcaica e limitada noção temporal). Cronos (Κρόνος), Titã da segunda geração de deuses Olímpicos, expressa bem esse momento sustentando a faca suja de sêmen com a qual castrou seu pai Urano atendendo ao edipiano pedido de Gaia, sua mãe. Tais noções clássicas foram cristalizadas em nosso entendimento graças aos escolásticos que nos ofereceram uma versão batizada de Sócrates,  personagem de Platão, deste último e também de Aristóteles (fechando assim a trinca de teóricos clássicos do tempo cronológico). Os Santos Agostinho e Tomás conjugaram a tais visões as noções de infinitude, continuidade e eternidade sugerindo que o tempo tem uma direção: apontaria ele ao que não tem princípio ou fim, sendo imutável por perfeito, desse modo, sem perder o caráter de quantificação e cálculo, estabelece-se um fim do tempo: deus. Para tais autores, a humanidade marcharia de modo visível rumo ao invisível e não sujeito à corrupção do tempo e, portanto, não poderia ser mensurado (por estar fora do tempo como ens realissimum. Precisamos esperar vários séculos até que surgissem Heidegger e Lacan para (em separado) desatrelarem a noção de telos (τέλος) com a de tempo. Para Heidegger, em Ser e Tempo, “Finitude não diz primordialmente término. Finitude é um caráter da própria temporalização” referindo-se ao caráter de antecipação e de finitude da temporalidade que não significa primeiramente anterioridade nem término, “refere-se ao preceder-se e deixar vir a si as possibilidades de ser do poder-ser”, remetendo à noção de Tempo Lógico, de Lacan. A essa altura você, caro leitor, deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com as promissórias que emiti quando, no título, me referi a Clarice Lispector e ao Carnaval. O que a literatura e o carnaval tem a ver com a Filosofia? Esta breve história, no que conta de nossa herança no que se refere à noção de tempo, conta também do caráter profético da literatura. Sem conhecer Filosofia a fundo e sem amarrar a linguagem no laço de um compromisso epistemológico, nossos autores atravessam o tempo. Em um verso (“Gastei meu dia. Nele me perdi“) Drummond desparafusa duas enormes tradições filosóficas e estica nossa noção de tempo tornando o homem a própria areia que desce na ampulheta (sugerindo o tempo, o transcorrer do dia, juntamente com a morte, a que se refere no mesmo poema, como nossos horizontes de possibilidades). O mesmo faz Clarice com Restos de Carnaval ao nos apresentar a finitude não como término, mas como um elo. Joyceanamente nos apresenta um finício: em seu resto de Carnaval (tanto os restos da fantasia quanto o que sobra no canto da alma para enfrentar os dias de Momo e a falta de amor) fala do que sobra, ao fim, unindo-se moebianamente ao que faltou num mítico começo. É, afinal, o tempo, uma coisa moebiana e a literatura afirma isso atemporalmente invadindo, com suas ondas de letra, o litoral que não pode ser atingido mesmo por nossa mais ousada Filosofia.

RESTOS DE CARNAVAL
(por Clarice Lispector)

flor_amarela__93124_zoom“Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atra­vessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, co­mo explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham si­do feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compen­sação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de sú­bito entrava no contacto indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pes­soas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de crian­ça. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vai­dade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho in­tenso de ser uma moça — eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável — e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia boni­ta e feminina, eu escapava da meninice.

Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resol­vera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Pa­ra isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquia­berta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembras­se, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga — talvez aten­dendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel — resolveu fazer pa­ra mim também uma fantasia de rosa com o que restara de mate­rial. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calcu­lávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas — à ideia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combina­ção na rua, morríamos previamente de vergonha — mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quanto ao facto de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.

Mas por que exactamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já per­doei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrola­dos e ainda sem batom e ruge — minha mãe de súbito piorou mui­to de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa — mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de mo­ça que cobriria minha tão exposta vida infantil — fui correndo, cor­rendo, perplexa, atónita, entre serpentinas, confetes e gritos de car­naval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha ir­mã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que en­cantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até à rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de mi­nha mãe e de novo eu morria.

Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadei­ra e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos, de confete: por um instante ficámos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.”

clispector

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