A Estranha Poesia de Vinícius de Moraes

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É de Petrarca, o grande italiano, a autoria do modelo cadencial a que chamamos soneto italiano: composição estruturada por 14 versos, distribuídos em 2 quadras seguidas imediatamente por 2 tercetos que assim se mantém desde o século XIV. Os modelos rimáticos mais comuns martelam na cabeça de qualquer pessoa minimamente letrada em poesia (ABBA ou ABAB para as primeiras quadras e CDC ou CBB para o segmento final). O soneto, conforme Bandeira em seu Intinerário de Pasárgada, é talvez a métrica poética cuja aparência formal é, a um só tempo, a mais complexa e a mais facilmente reconhecível. Assim é também o nosso Vinícius de Moraes (cujo centenário iniciamos a comemorar nesta postagem): a um só tempo complexo e familiar, estranho e próximo. Estranho no exercício de um modo de vida avesso ao nosso narcisismo bom-mocista e próximo quando nos põe a nu com sua letra e sua nota musical. Sigmund Freud, em sua obra oceânica, cria uma aproximação terminológica entre duas palavras muito próximas em Alemão e conclui que o que se afigura à consciência como estranho (invasor/assustador) somente o é em função de um outro atributo menos facilmente percebível e residente numa esfera inconsciente, ou seja, tal objeto estranho, é, antes de mais nada, familiar (unheimlich). Exemplifica com um fato concreto de sua ofegante biografia quando, em uma viagem de trem, vê por trás de uma porta que se abre um homem de roupão em seu compartimento. Depois de um segundo onde claramente distingue em si um sentimento de antipatia direcionada à figura, se dá conta (no instante seguinte) de que se trata de sua própria imagem refletida no espelho que se encontrava fixo por trás da porta que se abriu. Feito alvo de sua imagem especular, impedido de reconhecer-se, torna-se ele próprio (no dizer de Antonio Quinet) “o objeto do olhar antipático do outro” (A Estranheza da Psicanálise, Zahar, p. 8). O Unheimlich é esse objeto. A Psicanálise é estranha ao tempo presente, mas não só ela: também a poesia, a razão, a pequena parcela da Filosofia que não vendeu sua alma no Mercado de políticas baratas, as formas estéticas clássicas e tudo o que é livre e corajoso. Que outra época melhor para se celebrar o poetinha? Em que outro momento sua memória se torna mais oportuna do que quando precisamos (não menos que sempre) de beleza e amor? Vinícius de Moraes, o grande sonetista da poesia brasileira (aquele que popularizou o estilo), resume em sua obra musical e poética a lembrança de todos os nortes que em nosso tempo encontram-se desconectados: o apreço às formas clássicas, o diálogo irrestrito com os modernistas, uma existência absolutamente livre de prudências econômicas e moralismos organizadores, o atravessamento da poesia, a produção de letra em lugar de sintoma, a expressão do que há de incontornável no impossível da relação sexual. Evoé Vinícius, saudado hoje, em terça-feira de Carnaval, em vida, obra, poesia, beleza e agonia. Que venham seus acordes. Que venham e nos acordem.

SONETO DE CARNAVAL
(por Vinícius de Moraes)

“Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.”

(Escrito em Oxford, 1939)

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Sobre Pedro Gabriel

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