Paidos Agogé

 

Pediatria, Ed. MedBook ISBN: 978-85-99977-59-0

“O filho que não fiz hoje seria homem, ele corre na brisa sem carne e sem nome”, diz Drummond em “Ser”. Em verdade o filho ao qual faz referência, o tal “que viveu meia hora”, foi feito e desfeito no intervalo cruel e breve de trinta minutos. Meia hora sob o céu deste estranho mundo. Ainda não fui capaz disso: de me replicar a fim de quitar a parcela residual de culpa do enfrentamento do meu próprio pai no Édipo. Na verdade ainda não casei e me encontro perdido na rota que um dia já foi tão clara e que hoje se bifurca em mil possíveis vielas (muitas delas colocadas no saco). Perder-se é caminho, escrevi outro dia relembrando Clarice. Perder-se é na verdade o caminho por excelência, a via Régia. Perder-se da retidão previsível, dos sonhos fincados em duro solo, dos ditos paternos, das tramas que (tecidas com rigidez) determinam nosso destino nesse mundo. Perder-se é fazer caminho singular é driblar o Grande Outro e fazer algo de nosso antes que chegue, implacável,  a diligência  do abismo: a indesejada das gentes. Num antiquíssimo ensaio, Michel Eyquem (o “Seigneur de Montaigne”) nos lembra que a Filosofia é aquilo que nos ensina a morrer ou, dito em outros termos, o que auxilia a nos reconciliar com os contornos (voluntários ou não) de nossos caminhos imaginários e das rotas primeiras de nossa vida. Não sei o caminho que a vida tem pra mim, mas orgulhoso mantenho a crença de que nós somos os menos aptos a dizer onde nosso curso vai desembocar. Adoraria ter esposa, filho e cachorro (a tragédia completa), mas, ao contrário do que as pessoas proclamam, determinados modos de vida não são acessíveis a todos e o amor (tal como a poesia) é algo raríssimo que acomete somente a uns poucos. A grande massa segue simulando o que acredita ser vereda e que na verdade é mordaça. Somos caminhados por nossos caminhos, agenciados por aquilo que deveria estar sob nossos pés. Exemplo disso é este post onde eu everia simplesmente falar sobre a minha nova publicação, recebida hoje da editora (esse HandBook aí da foto onde tive o privilégio de escrever  um capítulo em co-autoria com Andréa Echeverria). O que deveria ser o anúncio vaidoso de um texto, um lamber de cria, tornou-se a lamúria por não ter ainda um filho amassando meus livros repetindo a descoberta que eu próprio fiz um dia e uma esposa flutuando em uma nuvem de doçura aqui nesse apartamento. Faz-se o que pode. O que posso hoje é escrever e sigo firme no fado que escolhi pra mim.

Sobre enfrentamento paterno, infância e caminho existe uma belíssima poesia de Drummond chamada “Viagem na Família” e que tenho a alegria de partilhar com vocês . Segue no link abaixo narrada com maestria pelo próprio Drummond com sua voz de “menino entre mangueiras”.

Viagem na Família [Narrado por Carlos Drummond de Andrade] by lituraterre

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Sobre Pedro Gabriel

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