Noite (in)Feliz

Natal: o carnaval dos ruídos. Minha alma cobriu aterrorizada seus castigados ouvidos primeiro diante das declarações que proclamam uma espécie de leilão de best wishes e depois (agora mesmo, pra ser mais preciso) ante o alarido dos rojões soltados à minha janela e que me privam do merecido sono que adiará por mais um ano essa noite (in)feliz. Não é só o Natal que se oferece como um convite sereiesco (o mesmo entoado pelas Sereias intimando Ulisses ao apagamento na multidão, no grupo), nesse bordel que muitos chamam de país sobram incessantes convites para a dissolução na massa disforme que proclama irracionalmente um modo único de vida, dispersos numa mesma e vazia gama de sensações. As ruas dessa cidade estão repletas de pessoas que buscam em bares e shows uma atmosfera de incessante e incorruptível felicidade (sentimento que encontra no Natal o seu ápice). Os rojões que me acordaram e me trouxeram ao computador são gritos desesperados, pedidos de ajuda que me fazem pensar no futuro de uma humanidade para quem a angústia tornou-se tão criminosa a ponto de precisar ser negada mesmo sobrando evidências de como ela (ao lado da culpa) determina a vida coletiva. De rosto enxuto minha alma chora copioso luto abismada no que nos tornamos ao sentir vergonha de nos assumirmos tristes causas perdidas trocando a propriedade existencial (se um dia a tivemos) por um sorriso mentecapto de uma alegria de cuja posse ninguém é sabedor. Se assim o fosse a mentira não precisaria ser constente e barulhentamente reafirmada com gritos de noite feliz e fogos que diminuem o ardor interior. Se estiver certo o velho Freud (e cada pequeno e grande movimento nosso atesta isso) as poderosas forças interiores de que lançamos mão pra convencer a nós e ao outro de nossas nobres mentiras evidenciam a força dessa culpa que nos obriga a perdoar a todos e mudar de vida pra sempre pela duração de uma única noite. Já que não se morre uma só vez, nem de vez (como nos diz Drummond) que venham outros Natais, Reveillons, festas, aniversários, confraternizações, homenagens, shows de rua com muita gente barulhenta, carros de passeio com auto-falantes de dar inveja a trios-elétricos. Apaguemo-nos nesses ruídos e esqueçanos que a vida é breve e perdida, que não haverá tempo no futuro para as questões fundamentais. Acreditemos que sempre haverá tempo e nos entreguemos aos desencontros de nosso sangue em todos os corpos por onde este segue clivado: nos penosos laços de família natural e nos “irmãos” que tão facil e injustificadamente elegemos ao partilhar um mísero copo de bebida. Não ser feliz explica tudo. Mais que isso: não ser feliz explica o Natal.

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Sobre Pedro Gabriel

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5 respostas para Noite (in)Feliz

  1. Recebí de presente de anti-Natal, os poemas postados de Fernando da Mota Lima, devo confessar, o único.Então, diante da sonoridade de tais argumentos e em sua página, sinto-me chamada a posicionar.

    NATAL
    OUTRO
    CAMPO

    OUTRO
    natal
    outro
    amor
    outr
    mal
    out
    endereço
    ou
    luz
    o
    poema

  2. stephanie disse:

    Sobrevivi… ao natal.

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