A Morte do Cisne, a Morte da Arte

Le Carnaval des Animaux é uma peça de Camille Saint-Saëns datada do já distante 1886. Sua beleza que desconhece o envelhecimento a torna atualíssima e capaz de nos comover quase 150 anos depois de passado o contexto de sua produção. Talvez por não ter sido obra datada que, como o que se produz hoje sob o nome de arte, apenas atende a demandas transitórias a fim de angariar fama (moeda do nosso tempo) e espaço no show business (sempre mais business do que show). Arte não é o que se “faz para”, não é o que o artista opera e sim o que se opera no artista tornado mero instrumento (tanto mais transparente quanto mais sublime a arte) e Le Carnaval des Animaux é exemplo dos maiores de uma certa zona de involuntariedade do artista em relação à obra, aqui expressa na vergonha que Camille Saint-Saëns tinha de sua composição. Ao finalizar sua obra notou aterrado que a mesma possuía um tom indisfarçavelmente lúdico e, considerando-a perigosa para sua reputação de homem sério, proibiu sua execução até sua morte (quando a peça veio integralmente à tona em sua magestosa simplicidade).

 

Natureza Morta com Jarro e Maçãs - Tela de Pablo Picasso

Suplico ao meu leitor que não proceda uma leitura daltônica e que distinga  (tão bem quanto puder) as nuances intermediárias das cores que lanço nessa tela: não afirmo aqui uma concepção metafísica da arte como uma instância divina e distinta do homem que aparece quando este, renunciando aos ruídos da vida, tranca-se em um estúdio e pode simplesmente transcrever o que, já pronto, paira sobre sua cabeça. Não é disso que se trata. Entre esses dois opostos há uma confusão entre as categorias de suficiente e necessário. Evidentemente a história de vida do artista é necessária: sem a crueldade com a qual a vida nos lesa não há arte. Entretanto a história e a fronteira contextual que circula o artista não são suficientes (embora, como já dito, é algo necessário). O que transcende o necessário e aponta para a suficiência é o que está na delicada e breve zona do que não pode não ser produzido: aí está a arte. Numa bela imagem a qual cito de modo irresponsavelmente breve, Heidegger (entre um e outro passeio pela Floresta Negra) diz que o que faz a jarricidade da jarra é sua vazão e que o vazo assim o é como borda do vazio que contém.

O Carnaval dos Animais cumpre todos esses requisitos para ser considerada uma verdadeira obra de arte e, mais que todos eles, envelheceu muito bem. Resistiu à suprema prova do tempo demonstrando densidade e que tal peça comporta um dito. Mais do que isso, tornou-se matéria de mais produções que não seja o mero falatório descompromissado com o ser: as tais fofocas geradas pelo rame-rame que se tornou a crítica artística atual. Avançando para esferas interiores de si própria, a obra cresce pra fora (tornando-se imortal) e internamente (gerando crias e multiplicando-se).  É nesse movimento de expansão que um de seus movimentos (Le Cygne) é destacado por Michel Fokine e transformado, ele próprio (o movimento, não Fokine) em uma peça autônoma: uma das mais belas coreografias de Ballet de que se têm notícia.

 

Anna Pavlova executando sua obra prima

Fokine, no ano de 1905, teve o privilégio de trabalhar esta composição ao lado de Anna Pávlova, uma das maiores dançarinas russas nascida em um subúrbio miserável de San Peterburgo. Eram vistos juntos, absortos na sua soberba tarefa, nos parques e jardins admirando cisnes e lendo, juntos, a poesia de Alfred Tennyson. O resultado de todo esse investimento é uma explosão de uma beleza interior indescritível: uma das peças mais belas já apreciada pelos sentidos humanos. Com pouquíssimos minutos de duração, “A Morte do Cisne” (nome que recebeu o formato final) ilustra os últimos momentos de um cisne ferido. Com uma graça quase impossível de ser executada pela anatomia humana, o ballet mostra um suave entregar-se ao seio do esquecimento: uma morte sem resistências, sem questionamentos inúteis, sem anseio de continuidade (dignidade quase impossível para humanos). A morte aqui é apresentada como evento da vida e se é verdade o que diz Carner, que toda arte é arte por nos ensinar a morrer, encontramos mais um atributo presente nesta peça que a torna imortal. A maioria de nós vive esquecidos da morte: como se ela não fosse conosco. A boa arte no entanto nos apresenta o verso: a vida entendida como perda e não como um somatório de coisas que devem ficar eternizando essa composição que um dia respondeu por um nome próprio e que como as demais coisas no universo deve passar.

Heidegger em um de seus passeios matinais pela Floresta Negra

Esquecidos da morte os homens deslembram-se da arte que morre em silêncio sem que a maioria se dê por isso. Em seu túmulo, as instalações e performances dançam um ritmo fugidio feito de som e fúria (desses nos entram violentamente pela janela e por meio das tantas fontes de ruído atuais) que em breve dará lugar a outra expressão igualmente irrelevante. A arte é um cisne ferido de morte que em sua dignidade não se recusa a passar.

Enquanto escrevo tenho o grato prazer de ouvir um vizinho em algum lugar da rua aprendendo violino. Com alguma dificuldade ele maneja o arco ensaiando o Canon em D de Pachelbel. Talvez haja alguma esperança afinal.

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O vídeo que inicia este post é de Maya Mikhailovna Plisetskaia, na minha leiga opinião a que melhor exerceu a mímese corporal que o ballet proporciona. Ela inseriu algumas variações no desenho original de Anna Pavlova. Abaixo apresento a coreografia original executada pela própria Pavlova para cotejamento.

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Sobre Pedro Gabriel

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24 respostas para A Morte do Cisne, a Morte da Arte

  1. raffaella aureliano disse:

    Qnt mais o leio mas me deparo com minha ignorância… és raro, não de conhecimentos vãos, mas de sentimentos sãos…. é sempre um prazer LÊ-LO, e compreendê-lo, não nas palavras e entrelinhas, mas no prolixo sentimento latifundiário do teu ser… é poeta do saber… eita que hoje tu me inspirastes….

    • Pedro Gabriel disse:

      Raffaella. Acolho com encanto seu comentário tão delicado e agradeço por suas palavras muito mais generosas do que efetivamente justas. Elas me servem de alerta. O objetivo de meu escrito não é ensinar, orientar, esmagar o leitor com o peso de um conhecimento que aliás nem tenho. O objetivo do que escrevo é ser brisa que evoca algo de real. Apenas isso. Seu precioso comentário me acrescenta quando me diz que meu instrumento precisa ainda ser afinado.

  2. amanda disse:

    eu adorei a morte do cisne e lindo so faltava eu chorar!!!!beijos

  3. Vanessa disse:

    Caro Pedro Gabriel: Faço minhas as palavras de Raffaella Aureliano.Todas! confio em Raffaella -uma vez que quase nunca nos é dado alcançar a real dimensão das palavras alheias…- no meu anseio em emprestar dela para louvá-lo, agradá-lo, enaltecê-lo, meu caro; você compõe música de rara beleza para nosso espírito. É um canto que alcança a vibração da categoria dos anjos, posso supor. A perfeição está ali no infinito. Pedro Gabriel, nossa alma debate-se como aquele cisne, também presa e subjugada na condição humana. A isso chamamos vida. Acalma teu coração. Espera o último ato. A obra é belíssima, vale a pena. Bjus.

    • Pedro Gabriel disse:

      Doce Vanessa, meus olhos alumbrados de menino acolheram brilhando as suas deliciosas palavras. Concordo perfeita e simetricamente com a ideia de que estamos aprisionados em uma estranha condição que faz com que haja uma incongruência fundamental em nosso funcionamento. Meu coração hoje está mais calmo do que nunca, a vida é uma brve chama (como diz Mackbeth de Shakespeare) que não pode ser extinguida antes de seu natural curso. Beijos.

  4. Marijô disse:

    Gostei de ler A morte do cisne, a morte da Arte. Obrigada, Pedro. Gosto de tudo o que me leva a ruminar, com a terna paciência dos bois. E põe as fontes da criação em movimento.

    • Pedro Gabriel disse:

      Marijô, obrigado pelo comentário acertado e pelo elogio de me colocar como funte de ruminação. Sua metáfora aliás me recordou um belo poema de Drummond que postarei bem agora. Beijos boiescos.

  5. Alexandre Gonçalves disse:

    Quanta poesia pode caber em gestos delicados, em palavras bem postas, em notas de extrema afinação? Pois foi tudo isso que vi, senti, respirei e intuí nesse seu belíssimo texto, Pedro Gabriel, tão docemente temperado por imagens desconcertantemente fluidas, graciosas, atemporais. Fosse a arte soprada na veia de cada um de nós como o são os descabidos estandartes de violência que inundam nossos tubos televisivos, e o Brasil seria outro, mais belo, mais iluminado, mais cheio de exuberância, inteligência e vigor. Parabéns por sua inigualável sensibilidade e suas belas palavras.

    • Pedro Gabriel disse:

      Caro Alexandre, comovido com sua generosíssima apreciação de meu humilde escrito, agradeço a manifestação. Esse blog não se propõe a outra coisa que não isto, uma oportunidade de manter contato com uma imensa e desconhecida família que se dispersou pelo mundo. Refiro-me à família porque os gostos comuns geram, nos mais sensíveis, um incontornável sentimento de proximidade e familiaridade. Como os judeus exilados durante a diáspora somos nós os que tentamos sobreviver em tempos tão sombrios e inférteis. Seja muito bem vinda e apareça sempre.

    • Pedro Gabriel disse:

      Caro Alexandre, contente por minhas palavras terem conseguido chegar ao Sagrado Rio de Janeiro, estado onde viveram na fase mais produtiva de suas vidas meus queridos Jobim e Drummond. Obrigado pelo seu comentário que já foi respondido (confira lá na página). Um abraço e apareça sempre e, se possível, traga seus amigos.

  6. ariane disse:

    esse texto é perfeito gostei muito muito fiquei procurando a historia ada morte do cisne e só aqui eu enconteri o que eu queria obrigada!

    • Pedro Gabriel disse:

      Ariane, obrigado pela visita e pelo comentário. Note que esta Morte do Cisne, do Carnaval dos Animais não se refere ao movimento da Morte do Cisne da famosa peça de Tchaikovsky (O Lago dos Cisnes, retratado no filme O Cisne Negro) sendo uma expressão anterior e ao meu ver mais grandiosa sob alguns aspectos. Agradeço mais uma vez seu comentário gentil e sua preciosa visita. Sinta-se em casa e volte sempre.

  7. Fábio disse:

    BELA MÚSICA,
    BELA DANÇA,
    BELO TEXTO.
    As maiúsculas acima podem parecer um tosco grito de internet, mas é um grito de alegria pela Arte, Arte verdadeira, maiúscula, de compor com sons, com gestos e com palavras. Obrigado por me fazerem pertencente a um grupo que eu escolhi! Obrigado Pedro por mais está família!

    • Pedro Gabriel disse:

      Caro Fábio. Uma doença súbita e já superada me fez distanciar-me do Blog umas semanas, afastamento que me impediu de encontrar seu gentil comentário agora liberado e devidamente respondido. Se você sente a vibração de recolocação subjetiva por meio da letra e da arte presente nesse blog então seja muito bem vindo: ele foi feito pra gente como você e eu e fazes sim parte dessa família imensa e exilada. Apareça sempre.

  8. Fernanda do Valle Ramos disse:

    Pedro,
    A cada vez que eu lhe leio, eu tomo um susto! Um grato susto com a força de suas palavras, com o vasto conhecimento para um cabra tão jovem e com a concisão de seu pensamento – um tanto amargurado às vezes, sempre e, principalmente, extremamente sensível para as coisas do sujeito. Não há como escapar de reconhecer tal sensibilidade nos textos que você escreve.
    De cá das montanhas de Minas, eu fico pensando que há, sim, coisas muito boas nesse seu Hellcife!

    • Pedro Gabriel disse:

      Querida Fernanda, agradeço a generosidade de suas palavras e o elo que suas palavras traçam entre nós. Aceito esse elo de irmandade. Sigamos juntos, “de mãos dadas” como disse Drummond, estranhando as mesmas coisas nessa vida tão rude. Que as palavras nos sirvam de algum conforto.

  9. Natália disse:

    Belo texto, o qual me fez transformar uma desconfiança em constatação: você é um artista.

  10. roberto disse:

    Linda a música que sussurra ao meus ouvidos, acalma àlma e faz desacelerar a minha pulsação. Pena que já não existe mais compositores deste naipe. É realmente uma lástima.

    • Pedro Gabriel disse:

      Obrigado pelo comentário, sua visita me honra. De fato os compositores dessa natureza são cada vez mais escassos em função também, imagino eu, de uma crescente desvalorização das formas clássicas (não somente na música, mas em toda a nossa organização de um modo mais geral). No entanto a música não morreu, as orquestras resistem e existem intérpretes novos dotados de um frescor de espírito que é muito auspicioso. Fique atento ao Virtuosi (http://www.virtuosi.com.br/) aqui você consegue amostras do que acontece de vivo na cena contemporânea da música de câmara. Um abraço.

  11. Pingback: Vinte e cinco anos depois, vinte e cinco vivas a “Os Mortos” | lituraterre

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