Vinte e cinco anos depois, vinte e cinco vivas a “Os Mortos”

John Huston

Os Vivos e os Mortos (The Dead, 1987) é um filme extraordinário de um diretor excepcional. Foi dirigido pelo americano John Huston, nascido na pacata Nevada de 1906, há exatos 25 anos, tendo envelhecido muito bem (ambos, aliás, criatura e criador). Autor de um percurso oscilante, sua sensibilidade e grandiosidade ficaram incrustadas em pedra, imunes ao tempo e a possíveis variações em sua obra nada modesta. Esse filme foi o seu canto de cisne, seu lamento, no sentido grego do termo. Em sua obra derradeira, dirigida a partir de uma cadeira de rodas, legou à posteridade usando a linguagem que o eternizaria o que foi o breve sopro de sua e de todas as existências. Em uma produção esteticamente impecável, faz saltar aos nossos olhos em cores e som toda a força do conto quase homônimo (“Os Mortos” em Dublinenses) do escritor irlandês James Joyce, que trata originalmente da aventura do homem sobre essa terra de exílio e solidão. Há um fio que perpassa dividindo e costurando todas as existências. Embora não exista um significante para nomeá-la, costumamos chamar tal corda, que nos salva e nos afunda, de morte. Deparar-se com a sombra da finitude, com o término que nos espreita e vem, galopando com patas de ferro, alçar um a um os nossos convivas sem que tenhamos tempo de escondê-los (numa alusão a um belíssimo poema de Drummond) gera um marco na existência do sujeito. Esse é o ponto de capitonê onde giram e se enlaçam nossas linhas, onde se organiza a experiência dos vivos em função da morte e da borda que ela faz à contra-morte. Subtraídos os aspectos temáticos, é esse é o argumento central do conto e que se mantém majestosamente no filme de John Huston que vai avolumando-se em paixão à cadência da música especialíssima de Alex North, que não poderia compor melhor moldura para a obra.

James Joyce

Existe um desafio inerente à transposição de clássicos de uma para outra expressão de arte e em se tratando de uma narrativa que figura em praticamente todas as listas dos mais belos contos já escritos o desafio se agiganta. Havia, no entanto, um obstáculo maior no intuito de J. H.: rodar James Joyce. Embora Dublinenses não seja da lavra esotérica de Joyce (o conjunto de obras tidas como herméticas ao leitor não anglófilo) constitui-se, ainda assim, em uma narrativa desprovida de qualquer base dramática prévia: um texto em zigue zague com longos relatos de inquietações e voltas interiores em que embarcam moebianamente seus complexos personagens. Não poderia haver melhor escolha para Huston assinar, em cristal, a eternização de seu nome no cinema. O modo como encerra sua obra faz dele um artista privilegiado, que conclui a sua obra valendo-se de toda a maturidade construída nos anos empregada num projeto derradeiro. É um escritor que finda antes de finar-se, não sendo, como tantos, abatidos em pleno vôo. Poucos têm esse privilégio. Tal percurso de maturidade não foi linear. John Huston inicia sua carreira apoteoticamente com Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, 1941) que para alguns é o filme noir prototípico. No meio do caminho em direção ao seu fim, fez um percurso inconstante, mas valoroso. Rodou filmes grandiosos e inesquecíveis, (Tesouro de Sierra Madre, The Treasure of the Sierra Madre, 1948), rodou também filmes simplesmente bons como Freud Além da Alma (Freud, 1962, com roteiro assinado por Jean Paul Sartre), filmes miúdos como Carta ao Kremlin (The Kremlin Letter, 1970) e até filmes medíocres como Moby Dick (1956), um dos maiores fiascos cinematográficos sob todos os aspectos que se possa imaginar, com o Gregogy Peck no papel do Capitão Ahab fazendo uma atuação que beirava o pastelão. Foi também ator de alguns de seus filmes, produtor de outros, roteirista e até narrador (fazendo algumas vozes da recordação de Freud em Freud Além da Alma). Dirigiu também atores de todos os quilates, de Humphrey Bogart a Pelé (em Fuga para a Vitória, Victory, 1981). Assim, se sua largueza profissional é incontestável, seu valor artístico não é menos evidente. Tal avaliação não é uma qualificação socialmente atávica, dessas que se repete por desconhecedores da obra e sem um crivo estético. O percurso de seu trabalho foi par da travessia que fez na vida, foi um dos últimos artistas em quem a arte foi uma experiência de elaboração de algo que pulsa na esfera íntima, uma confissão social de algo inconfessável até mesmo para si. Viria depois a arte espetáculo, os filmes blockbusters e o artista de encomenda, que mais do que arte precisa dominar as técnicas de entretenimento para capturar o níquel do público com alguma cabriola que acaba tomando, por vezes, o lugar da própria arte. A isso (à morte da arte e à vida de Huston) nos deteremos num escrito posterior, pretendo ainda dizer algo sobre estrutura dramática do filme criada por Huston e fazer alguma correlação com o conto e não quero cansar o meu leitor de modo assino aqui a promissória de retornar a este que foi um dos grandes Joões que marcaram minha vida.

Capa do DVD Os Vivos e os Mortos, The Dead, 1987

Seu último filme foi curto. Curto como o tempo que lhe restava de vida, curtas como eram as forças que lhe sobravam, curto como o conto de Joyce, curta, sobretudo, como é a breve a experiência de estar vivo. Curta e suave. Suavíssimo é também este maravilhoso filme. Numa noite de Reis em Dublin, no importante ano de 1904, Gabriel Conroy (Donal McCann) e sua esposa Gretta Conroy (Angélica Huston) se juntarão a numerosos convidados para uma ceia tradicional irlandesa onde se repartirão canções, discursos, poemas, dissabores, peru assado e as sobras do Christmas Puddim. A festa transcorre serena com um indisfarçável olhar de alheamento presente num dos cantos do olhar de Gabriel, intrigado, entre outras coisas, com uma certa indiferença de sua esposa Gretta que transparece alguma tristeza, sobretudo ao ouvir fragmentos de uma determinada melodia. À sua volta tudo transcorre belo, melodioso e açucarado. Todos estão felizes, impetuosos, satisfeitos. Todos vivos.

Uma das cenas do jantar de Reis em The Dead

Ao final da celebração, quando transcorrem todos os eventos possíveis (dos mais desagradáveis aos menos cotidianos) a um encontro familiar, o casal Conroy manda chamar o cabriolé e iniciam os rituais de despedidas. Principia-se aqui uma das mais belas cenas da história do cinema: Gabriel, que ao pé da escada aguarda sua Gretta, espanta-se ao notar que ela se detém entorpecida como que em transe, de rosto transido, olhando para si como como que a procurar a origem de uma voz que começa a entoar The Lass of Aughrim. Num dos enquadres da câmera vemos Gretta, imóvel no patamar, usando um véu branco tendo ao fundo a vidraça colorida de uma enorme janela (como um vitral de igreja) conferindo-lhe uma aura de santidade. Gretta e Gabriel, ambos, se detêm, ela ouvindo, ele esperando. Ela tomada de um sentimento confuso que somente seria desvelado na última cena, ele ardendo em amor ansioso por tomá-la em seus braços. Tudo transcorre sem diálogos (as únicas palavras são as da canção). O filme toma a proporção de galáxias e talvez também ele precise dos famosos 300 anos que pediu Joyce para compreendessem o valor de sua obra. Huston consegue rodar magistralmente o que escreve Joyce no trecho abaixo. Sugiro a leitura do fragmento do conto concomitante à escuta de The Lass of Aughrim que disponibilizo abaixo:

“Um fluxo de alegria ainda mais terna brotou-lhe do coração e expandiu-se numa cálida torrente em suas artérias. Como o brilho suave das estrelas, imagens de sua vida em comum, que ninguém conhecia nem jamais viria a conhecer, iluminaram-lhe a memória. Gostaria de recordar-lhe esses momentos, fazê-la esquecer os anos insípidos da vida conjugal e lembrar apenas dos instantes de êxtase. Sentia que nem sua alma nem a dela tinham sido aniquiladas pelos anos. Os filhos, os livros, os trabalhos domésticos não haviam extinto a delicada chama de suas almas. Numa carta que escrevera, ele dissera: ‘Por que razão as palavras me parecem tão tristes e frias? Será porque não existe palavra bastante suave para ser teu nome?’. Como longínqua música, essas frases que escrevera há muitos anos ressurgiam do passado. Queria estar a sós com ela. Quando todos tivessem ido embora, quando se encontrassem no quarto do hotel, ficariam então juntos e sós. Ele a chamaria docemente: – Gretta!” (James Joyce, p. 112)

Capa da edição brasileira de Dublinenses, editado pela “Civilização Brasileira”

Recuperada do transe, o desejo de Gabriel acotovela-se no seu interior disputando espaço com um outro afeto: intriga-se ainda mais pela ausência da esposa em toda a festa e, mais fortemente, no seu término. Gretta não retorna totalmente ao mundo dos vivos e mantém-se distante às tentativas de aproximação de Gabriel que no retorno pra casa tenta entretê-la com banalidades. Já no quarto de hotel, Gabriel acaricia-lhe os cabelos brilhantes afundando seus dedos na maciez relvosa de sua cabeça. Transbordando de felicidade e amor, mas também intrigado pela profunda melancolia que parece tomar novamente Gretta, não se contém e pergunta no que sua amada tanto divaga. Inicia-se aqui outra cena grandiosa, a maior de todo o filme e uma outra que não se perderá na curva do tempo (duas cenas legadas à posteridade num único filme, que maravilha). Gretta confessa então a história de um antigo namorado que costumava cantar a canção que tombou sua alma no topo da escada. Tratava-se de Michael Furry, o rapaz pobre da companhia de gás, sensível, de olhos grandes e castanhos, que morrera por sua causa aos 17 anos como conseqüência de uma noite ao relento em que tentou se despedir de Gretta que sairia da cidade. A culpa por tal morte lhe persegue por toda a vida e influencia uma série de fatos posteriores. Exausta e em prantos Gretta adormece e o momento final (do conto e também do filme) é de Gabriel, confrontado com a ilusão que foi sua vida. Já não tem mais certeza de nada. Do amor de Gretta, de seu próprio amor, das razões do seu matrimônio. Michael Furry, mesmo morto (ou justamente por isso) continua desempenhando um papel determinante na vida de Gretta e, consequentemente, de todos os Conroy. Entre dormindo e acordado, ou entre vivo e morto, Gabriel olha a neve e examina a si e ao seu passado. “Que triste papel desempenhei em sua vida”, disse Gabriel tomado de generoso pranto que denunciava que, apesar de tudo, o seu sentimento incerto era, afinal, amor. O filme torna-se denso, densíssimo. Fala de todos os que atravessam essa onda tão fugaz que é a vida, de nós que vamos nos dissolvendo nesse mundo cinzento e narcísico: um mundo pretensamente real e sólido em que os mortos que por ele passaram vivem ainda como fantasmas.

“Um por um, estavam todos se transformando em sombras. Seria melhor precipitar-se na morte no apogeu de uma paixão, do que extinguir e murchar lentamente com a velhice. Pensou como aquela mulher, adormecida a seu lado, ocultara por tantos anos a imagem do seu amado a afirmar-lhe que não queria viver.” (…) “imaginou ver na penumbra do quarto um jovem parado sob uma árvore encharcada. Outras formas pairavam. Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos. Pressentia, mas não podia apreender suas existências vacilantes e incertas.” (James Joyce, p. 134)

Huston encerra o filme da mesma forma como Joyce encerra o conto que é também do mesmo modo como se encerra uma vida: diante de uma janela. Gabriel se põe a recordar enquanto uma pesada e gelada neve cai sobre toda a Irlanda e sobre toda a História. Enquanto isso “sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente – como se lhes descesse a hora final – sobre todos.” Sobre todos os vivos e, não menos, sobre todos os mortos.

Nota: Escrever sobre este filme, um de meus favoritos, é uma alegria adicional por me trazer à recordação o modo como eu o descobri. Há aproximadamente dez anos atrás, três amigos reunidos em sublime e privadíssima confraria, à meia luz e taças cheias, falando baixo trocávamos mútuas indicações de filmes e discos. Lembro que nessa noite Igor apresentou o trailler de “Inocence” e Sylvio, em agradecimento, indicou este filme de Huston, cujo vídeo conseguiu-se logo em seguida. Voltar ao filme é a recordação de que nossa amizade vai persistindo, sem nenhum esforço diga-se de passagem, como uma afronta à atualidade turva em que vivemos. Embora possa conhecer oscilações da disponibilidade com que a vida nos fornece ou desautoriza, ambos estados momentâneos, é sempre uma razão de esperança, sobretudo numa época como a nossa, onde as pessoas correm sempre apressadas dentro dessa neblina gelada, perceber que pessoas insistem em cultivar no coração essa chama da elegância, do carinho, da capacidade de ficarmos a sós uns com os outros e à meia luz, vivendo de um modo diferente do “som e fúria” que percebemos no dia-a-dia. O conto de James Joyce pode ser lido integralmente no site do departamento de Letras da UFRGS: http://www.ufrgs.br/proin/versao_2/joyce/index11.html

Anúncios

Sobre Pedro Gabriel

www.lituraterre.com
Esse post foi publicado em (... LITURAS PRÓPRIAS ...) e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s