Bloomsday, Finnegans Wake e James Joyce em Recife

O ano de 1904 é decisivo para James Joyce: publica O Santo Ofício (o primeiro de sua vida adulta), escreve O Retrato do Artista Quando Jovem e lapida um esboço de ideia que, futuramente, virá a se chamar Stephen Herói. Sobretudo, é nesse mesmo ano de 1904 que James Joyce conhece Nora Barnacle, uma jovem camareira do Condado de Galway que seria sua companheira por toda a vida tendo enorme importância na construção de sua obra e no modo como Joyce lidará com as questões essenciais de sua existência. Em sua obra prima, o Ulisses, o “Livro Azul inutilmente ilegível, numa tradução simples” (como ele próprio o definirá no vindouro Finnegans Wake), Joyce descreve um dia na vida de Leopold Bloom. Em densas e belas 900 páginas, escritas com a lógica com que se tecem os sonhos, Joyce escolheu precisamente o dia 16 de junho de 1904 para ser o dia retratado no Ulisses por ter sido esse o dia da primeira vez em que fez sexo com sua Nora: então uma virgem de 20 anos. Por décadas a moralista imprensa irlandesa divulga a escolha do dia 16 de junho como sendo a data em que, por primeiro, eles “caminharam juntos”. Na correspondência trocada por ambos, no entanto, vemos o mistério da escolha da data do dia de Leopold Bloom (ou o Bloomsday) se deslindar como um nó que se puxa pelo lado macio. Numa das cartas de Nora vemos ela se desculpando pelo medo sentido em completar o intercurso sexual e Joyce, em contrapartida, recordando o fato de que ela, nesse dia, “o masturbou com os olhos de uma santa”. O dia 16 de Junho tornou-se um feriado na Irlanda, o único, aliás, em todo o mundo, dedicado ao personagem de um livro. Anualmente o Bloomsday é em todo o mundo pelos amantes da boa literatura como uma data a ser imortalizada, um dia para se celebrar James Joyce. No Recife, duas instituições de Psicanálise (Intersecção Psicanalítica do Brasil e Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise) organizam a celebração deste dia sublinhando, da oceânica obra de Joyce, o seu brilhante Finnegans Wake, que para alguns pode ser entendido como uma continuação do Ulisses. A celebração surge de um grupo de leitura do Finnegans Wake, que se reúne desde fevereiro deste ano na primeira quinta-feira de cada mês (e que seguirá se reunindo para misturar poesia com saliva pronunciando em voz alta as epifanias Joyceanas). Nesse Bloomsday temos muito o que comemorarde 2012 completam-se 130 anos de nascimento de James Joyce e 90 anos de publicação do Ulisses que são os exatos 90 anos do início da escrita de Finnegans Wake. Há 90 anos James Joyce caiu. “bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronnton nerronntuonn-thunntrovarrhounawn-skawntoohoohoordenenthurnuk!” Caiu exausto após penar mais de um ano pela publicação do seu Ulisses que, depois de muita luta, censuras e edições destruídas por ser considerado um livro imoral, somente é publicado pela famosa Shakespeare and Company, a famosa livraria da margem esquerda do Sena, numa tiragem modesta. James Joyce dessa queda levanta-se com seu Work in Progress, uma sequência de esboços cujos fragmentos foram sendo publicados em revistas literárias e opinados por seus colegas e admiradores, como Samuel Beckett, que chegou a escrever páginas inteiras do livro enquanto Joyce, já com a visão bastante comprometida, os ditava em detalhes: o Work in Progress seria, quando concluído, o seu Finnegans Wake. Há 90 anos Joyce Ressuscitava. Tim Finnegan é protagonista de uma antiquíssima canção popular irlandesa. Embriagado, Tim cai da escada, fere o crânio e morre. No velório (ainda na canção popular) um conviva se lembra de oferecer Uísque ao morto que, regenerado, levanta-se de modo que o velório começa em queda e culmina em festa. Donaldo Schüler, transcriador da edição portuguesa do Finnegans, em emocionante prefácio dirá que a queda pedreiro Tim prefigura todas as demais quedas de nossa História: “a de Lúcifer, de Adão, a de Roma, de Humpty Dumpty, (…) da maçã de Newton, a da chuva, a queda diária de todos os homens, sem excluir o colapso de Wall Street. Quedas e restaurações movem o universo. (…) À semelhança de Thor, de Prometeu, de Osíris, de Cristo, de Buda…, no ressureto borbulha a vida. (…) Morrer e renascer é o destino de todos.” (Schüler pp. 15-16). No próximo dia 16 nos reuniremos para celebrar James Joyce e sua obra, recitando trechos do Finnegans Wake, ouvindo música irlandesa e lendo trabalhos sobre sua obra de modo que esperamos, também nós, encontrar na letra Joyceana o caminho da constante ressurreição após as quedas diárias. Joy… Joyce.

“One mornin’ Tim was feelin’ full
His head was heavy which made him shake;
He fell from the ladder and broke his skull
And they carried him home his corpse to wake.
They rolled him up in a nice clean sheet
And laid him out upon the bed,
A gallon of whiskey at his feet
And a barrel of porter at his head.

Chorus

His friends assembled at the wake
And Mrs. Finnegan called for lunch,
First they brought in tay and cake
Then pipes, tobacco and whiskey punch.
Biddy O’Brien began to bawl
“Such a nice clean corpse, did you ever see?
“O Tim, mavourneen, why did you die?”
Arragh, hold your gob said Paddy McGhee!”

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