No meio do caminho… (por Carlos Drummond de Andrade)

“No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no…

Viver! (por Machado de Assis)

Tenho a felicidade de pagar agora, com o preço do meu escasso tempo, um dos muitos cheques sem fundo que emiti desde a abertura deste blog. Explico-me: prometi há tempos fazer referência aos meus orixás de cabeça, aqueles que sustentam ela e todo o restante do corpo quando os ventos cotidianos os ameaçam tombar. Faltava…

O Rio (por Guimarães Rosa)

Em visita recente ao Brasil a fim de promover seu mais recente livro de contos, arguido sobre qual a melhor narrativa curta lida em nosso vernáculo o escritor moçambicano Mia Couto respondeu que o texto abaixo é o melhor conto que já lera em qualquer idioma. Resistirei com a bravura à tentação de criar uma…

Dois depoimentos sobre a lágrima nordestina

Toninho Vaz (“Pra mim chega: a biografia de Torquato Neto” – Ed. Casa Amarela) [Em 1979] (…) “, Caetano compõe e grava Cajuína, escrita depois de uma visita a doutor Heli, em Teresina, que lhe deu a rosa pequenina colhida no jardim da casa, na Coelho de Resende. Sobre esse encontro, doutor Heli diria: “O…

2011

O tempo que rói mortos e vivos é criação imaginária. Turbilhão desses criados para nos triturar os miolos com o açoite de algo que inexoravelmente passa (sem reversibilidade possível) e que nos impele ao gozo. É preciso aproveitar o carnaval, conhecer o mundo, namorar mais de cem, tomar todas as drogas, casar e descasar, morrer…

2010

Chovo eu também, bem aqui, em tema já tão molhado: um balanço do ano que quase finda. Iniciar este blog foi um dos projeto mais bem sucedidos de um ano atarefado e cheio de bons concorrentes disputando este posto. A empreitada superou qualquer boa expectativa que eu pudesse ter eventualmente estabelecido de início (coisa que…

Paidos Agogé

  “O filho que não fiz hoje seria homem, ele corre na brisa sem carne e sem nome”, diz Drummond em “Ser”. Em verdade o filho ao qual faz referência, o tal “que viveu meia hora”, foi feito e desfeito no intervalo cruel e breve de trinta minutos. Meia hora sob o céu deste estranho…

Ser (por Drummond)

“O filho que não fiz hoje seria homem. Ele corre na brisa, sem carne, sem nome. As vezes o encontro num encontro de nuvem. Apoia em meu ombro seu ombro nenhum. Interrogo meu filho, objeto de ar: em que gruta ou concha quedas abstrato? Lá onde eu jazia, responde-me o hálito, não me percebeste, contudo…

…de Emília e de todos nós.

“[…] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria os filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre. – E…

Relva Verde Relva (por Ferreira Gullar)

“Dentro de mim – mas onde? no céu da boca? debaixo da pele? – fulge de repente um largo verde esquecido dentro de mim ou fora (em algum lugar nenhum) de mim um largo como se fosse um lago e quase a transbordar de verde ouvia a miúda algazarra da relva rente ao chão ah…