2011

O tempo que rói mortos e vivos é criação imaginária. Turbilhão desses criados para nos triturar os miolos com o açoite de algo que inexoravelmente passa (sem reversibilidade possível) e que nos impele ao gozo. É preciso aproveitar o carnaval, conhecer o mundo, namorar mais de cem, tomar todas as drogas, casar e descasar, morrer mil vezes, empenhar o nome, o cartão de crédito, esperar até fazer pregas na alma porque só se é jovem uma vez. A juventude vai-se embora e isso parece justificar nossos remos entregues tão docilmente a qualquer grande Outro que nos assobie. “Carpe Diem” ou “Compre em Dia” não são afinal tão distintos. Em ambos os apelos há o terror da carne tornando-se pó, nossa covardia diante da única companhia certa com quem nosso caminho fatalmente se cruzará. Há um interno e infernal estreitamento de nervos, dente, sangue, linfa, saliva, vísceras em nó diante do enfrentamento do nosso destino derradeiro.  Hoje surgiu uma ruga, amanhã preciso de outras lentes, o neto vai crescendo e em tudo vemos a indesejada das gentes nos bafejando a nuca, perseguindo-nos. Decidimos então (como se já não tivéssemos recursos suficientes para tal) criar mais o açoite do tempo (uma “foice” como diz Shakespeare), dividi-lo em marcas e criar metas que masoquistamente vamos des-cumprindo. É esse desespero de fazer material o impalpável que nos leva a todos a olhar esse ano que começa como algo novo, como se alguma misericordiosa força houvesse apagado os nossos pecados, como se efetivamente  freássemos o tempo no estourar da garrafa e começássemos rumo novo bem agora.  Que vida miserável é essa que levamos que faz necessitar de uma amnésia anual para seguir errando? O ano de 2011 é agora uma grande planície ensimesmada, um descampado de incerteza semelhante ao que foi encontrado pelos candangos na Odisséia por Brasília: é o que achamos que temos. “No princípio era o ermo” diz Vinícius no primeiro movimento da Sinfonia da Alvorada (peça maravilhosa musicada por Jobim e tautologicamente poetada pelo poetinha a pedido de Juscelino para a inauguração da capital federal). Antes então de regressarmos ao trabalho onde gastamos inutilmente as nossas energias e lembrar que os bons desejos que estendemos aos nossos nas festas de dezembro foram fantasia da primeira das prévias carnavalescas, creiamos que é possível erigir metrópole da planície, que algo é possível diante da nulidade parda de nossa existência costumeira. É tarefa de toda uma vida descobrir a poesia que faz com que a ida à padaria valha a pena. A poesia maldita que nos abre os olhos para que acordemos e assumamos a tarefa radical de erguermo-nos e erguer algo (que o mesmo tempo se encarregará de tornar poeira). Essa é a tarefa e também o compromisso com o tempo que o barulho das festas não pode apagar e que mestre Riobaldo ensina a des-esquecer: vida esquenta e vida esfria; vida aperta mas em seguida vida afrouxa; sossega, desinquieta e de nós espera uma coisa só: coragem. Coragem a todos os meus amigos na travessia do fantasma 2011.

Tom Jobim, autor da música da Sinfonia da Alvorada, regressando de uma das explorações pelo planalto que seria Brasília. Regressava da fonte descoberta casualmente e que inspirou a ele e Vinícius a compor "Água de Beber".

“No príncipio era o ermo
Eram antigas solidões sem mágoa.
O altiplano, o infinito descampado
No princípio era o agreste:
O céu azul, a terra vermelho-pungente
E o verde triste do cerrado.
Eram antigas solidões banhadas
De mansos rios inocentes
Por entre as matas recortadas.
Não havia ninguém. A solidão
Mais parecia um povo inexistente
Dizendo coisas sobre nada.
Sim, os campos sem alma
Pareciam falar, e a voz que vinha
Das grandes extensões, dos fundões crepusculares
Nem parecia mais ouvir os passos
Dos velhos bandeirantes, os rudes pioneiros
Que, em busca de ouro e diamantes,
Ecoando as quebradas com o tiro de suas armas,
A tristeza de seus gritos e o tropel
(…)
E só ficaram as solidões sem mágoa
O sem-termo, o infinito descampado
Onde, nos campos gerais do fim do dia
Se ouvia o grito da perdiz
A que respondia nos estirões de mata à beira dos rios
(…)
E vinha a noite. Nas campinas celestes
Rebrilhavam mais próximas as estrelas
E o Cruzeiro do Sul resplandecente
Parecia destinado
A ser plantado em terra brasileira:
A Grande Cruz alçada
Sobre a noturna mata do cerrado
Para abençoar o novo bandeirante
O desbravador ousado
O ser de conquista
O Homem!”

[Vinícius de Moraes, trecho de “O Planalto Central”, primeiro movimento da Sinfonia da Alvorada que é trazido na íntegra (o movimento, não a sinfonia) no registro sonoro abaixo]

O Planalto Deserto [Tom Jobim e Vinícius, primeiro movimento da Sinfonia da Alvorada] by lituraterre

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5 respostas para 2011

  1. Pingback: Tweets that mention 2011 | lituraterre -- Topsy.com

  2. sylvia disse:

    belíssimo o texto;)

    • Pedro Gabriel disse:

      Olá Sylvia, obrigado pelo retorno. Esse é um espaço aberto para a interlocução sobre temas que nos interessam comumente. Volte sempre, fique sempre à vontade para opinar. Visitarei seu blog e farei o mesmo. Um abraço.

  3. Texto perfeito meu caro.

    E penso que a vida é alguma eternidade, livre destes anos, destes dias, destes parametros. Talvez só seja preciso amar uma vez.

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