“Quando a Indesejada das gentes chegar (Não sei se dura ou caroável), talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: – Alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer. (A noite com os seus sortilégios.) Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar.” (Por…
Autor: Pedro Gabriel
Boiação (por Fernando da Mota Lima)
O homem nasceu para boiar. Imagino o homem em estado primitivo, anterior a esse espantoso acervo de invenções e desenvolvimentos que se chama civilização ocidental. Vivendo então suspenso entre as águas paradas e a sombra das mangueiras, o homem prazerosamente descansava como uma força inútil da natureza. Sua felicidade primária, derivante dessa espontânea integração no…
Shakespeare: o próprio cofre de chumbo
Shakespeare é sem dúvida uma das maiores descobertas de minha vida. Dentre todas as construções humanas desde a utilíssima roda até a subutilizada internet (que nos dotou de uma irrestrita capacidade comunica- tiva independente- mente de haver o que ser comunicado) a mais extraordinária é, possivelmente, a sua obra imensa. Talvez como em nenhum outro…
Belo Belo (por Manuel Bandeira)
“Belo belo belo, Tenho tudo quanto quero. Tenho o fogo de constelações extintas há milênios. E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes. A aurora apaga-se, E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora. O dia vem, e dia adentro Continuo a possuir o segredo grande da noite. Belo…
Poesia Concreta (por Manuel Bandeira)
Extraído de DIMENSÃO – Revista Internacional de Poesia Uberaba/Brasil – Ano XVII – N. 26 – 1997 – Número Especial III
L’albatros (par Charles Baudelaire)
“Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers, Qui suivent, indolents compagnons de voyage, Le navire glissant sur les gouffres amers. A peine les ont-ils déposés sur les planches, Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux, Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches Comme des avirons traîner à côté d’eux….
Caso Pluvioso (por Drummond)
“A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo. E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava. Eu era todo barro, sem verdura… Maria, chuvosíssima criatura! Ela chovia em mim, em…
Paisagens do Sertão de Rosa
Sertão é isso: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha idéia de tudo só ser o passado no futuro. Imaginei esses sonhos. Me lembrei do não-saber. E eu não tinha…
Poema da Necessidade (por Drummond)
“É preciso casar João, é preciso suportar Antônio, é preciso odiar Melquíades é preciso substituir nós todos. É preciso salvar o país, é preciso crer em Deus, é preciso pagar as dívidas, é preciso comprar um rádio, é preciso esquecer fulana. É preciso estudar volapuque, é preciso estar sempre bêbado, é preciso ler Baudelaire, é…
Por Você Por Mim – Fragmento (por Ferreira Gullar)
“A noite, a noite, que se passa? diz que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta pantera lilás, de carne lilás, a noite, esta usina no ventre da floresta, no vale, sob os lençóis de lama e acetileno, a aurora, o relógio da aurora, batendo, batendo, quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão…
