O Rio de Manuel Bandeira e a Apophasis da Noite

Abaixo, narrado pela voz calejada do caminho que nunca lhe levou à Passárgada, Manuel Bandeira nos apresenta um roteiro de travessia para quando a noite vem. A poesia é antes de mais nada uma via de reconciliação com as nossas paisagens interiores, uma picada aberta nas nossas veredas mais intransponíveis. A poesia nos move, nos mobiliza, abre nosso circuito interior para algo que não seja nós próprios promovendo uma experiência de transcender-se. Não seria demais dizer que a poesia (ou o belo que ela evoca) é um deus vivo operando milagres. A arte oferece uma resposta, uma alternativa, descola-nos daquilo que nos cerca e determina e essa é a razão suprema pela qual Nietzsche afirmava que, fora da arte não havia salvação. É este, concomitantemente, o motivo pelo qual fora da vida não há arte. A vida, com seus percalços e vicissitudes, é sempre o contexto geral dentro do qual a poiesis fará seu sentido de logos apophantico: aquele que instaura um novo mundo ante a enunciação não de propósitos falsamente otimistas, mas do reconhecimento que de nós a vida exige uma só coisa, coragem se seguir mansamente flutuando em cima do oco do mundo.

O RIO
(Por Manuel Bandeira)
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Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

3 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de Carla Graziela Carla Graziela disse:

    Poesia linda, imagem perfeita…e o teu comentário…assino embaixo!=P
    Faço questão de salvar essa página nos meus favoritos, compondo um “kit terremoto”;)

    1. Avatar de Pedro Gabriel Pedro Gabriel disse:

      Carla, o Kit Terremoto valeu por muitos comentários. Obrigado pela sua valiosa companhia na travessia dos profundos rios.

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