O rocambole de liberdade e o enforcamento do ser

A vida é maior que qualquer obra, ela sim (e somente ela) é a composição inesgotável por excelência. Comporta todas as grandes obras e, mais do que isso, serve-lhes de matéria prima. Dentre todas as organizações, casuais ou propositais, feitas pela mão humana, a vida persiste como seu contexto mais geral, a moldura onde todas elas adquirem sentido. Não obstante mantém sua dimensão de mina inexplorada prestando-se, virginalmente, como isca cravada na carne dos não incautos, a fisgar o que em nós é palpitação e vestígio do que tem sido a estranha caminhada dessa espécie intensa e barulhenta que somos. Qualquer um que seja fisgado e consiga içar desse mar de dispersão um registro de um lampejo que seja do que há de comum em nossa jornada terá escrito uma grande obra, uma das que não se perderá no ocaso dos séculos. Dizer que a vida é o circuito geral que comporta todas essas possibilidades não é, evidentemente, um modo de desmerecer o valor de qualquer obra ou de afirmar que são secundárias. Mesmo menores que a vida, as grandes obras são mais urgentes, sua convocação é mais incontornável. A obra de arte, dialeticamente, cria a vida e sem a arte a vida, como arriscava Nietzsche, seria um amargo erro. Viver é dispensável. É inteiramente dispensável circular livre pelas noites barulhentas, conviver com pessoas efusivas e cheias de estórias de bravura, chegar ao ápice da verdade pelo pico de uma agulha ou pela ponta acesa de um condensado de ervas. Lembro aqui de meu Tomzinho querido quando prescindiu da vida para além da porta de sua casa em nome do apreço desmedido que tinha pelo ar refrigerado e da vida recolhida de Drummond que, em sua campânula de vidro, dizia que vivendo em recolhimento exercia sua cota irremediável de egoísmo prescindindo de exercer outras. Juntos esses dois são responsáveis por duas das maiores obras musical e literária produzidas em nosso idioma. Não é a vida entendida como fruição de eventos ônticos que é maior que a obra de arte. James Joyce, quando supôs que seus escritos seriam mastigados por comentadores por alguns séculos até que finalmente sucumbisse, foi talvez imaginando que a vida em sua elasticidade produziria novas questões para as quais se exigiriam novos modos de apresentar as mesmas respostas. Não imaginaria por certo que a vida no sentido convocante e provocante do termo seria enterrada e que a marcha da filosofia, da literatura, da arte e da política seria refreada em nome de um ideal narcísico de felicidade que começa justamente pela obliteração das questões mais fundamentais. Os leitores não cessarão de mastigar Joyce, mas infelizmente porque nada mais mastigam. Eis a liberdade dos incautos, a liberdade que a ignorância promove em forma de rocambole para sufocar o apelo que o ser faz em nós.

Rocambole de "Liberdade"

LIBERDADE (por Fernando Pessoa)

Ai que prazer
não cumprir um dever.

Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

OBS: abaixo o poema Liberdade na voz do declamador e ator lusitano João Villaret

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Sobre Pedro Gabriel

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2 respostas para O rocambole de liberdade e o enforcamento do ser

  1. A vida é uma escolha, antes de qualquer coisa um querer.

  2. Pingback: O Rio de Manuel Bandeira e a Apophasis da Noite | lituraterre

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