Esperar vale mais que compreender…

Caminho de Sertão e de Rosa

Caminho de Sertão e de Rosa

Existe uma “quadra de consolo” que recito interiormente nos tempos de dura prova. Quadra de consolo é o modo como chamo algumas palavras que, a exemplo de Drummond, apanho para meu sustento diário. Tomo-as como salvaguarda nos dias em que necessito caminhar sobre o fino gelo das incertezas cotidianas. Para as pequenas e grandes dores que se apresentam como pedra inevitável no meio do caminho de nossa vida, como uma não especularizável representante da angústia a nos remeter para uma instância para além do espelho do narcisismo, a poesia serve como forma privilegiada de recolocação subjetiva onde podemos nos descolar de qualquer determinação que sobre nós exercem os Outros e simplesmente avançar (com métrica, rima e sem dor). Já publiquei neste blog várias destas quadras de consolo que, ao contrário do que o nome sugere, nem sempre seguem o rigor da forma de quadras, mas gosto da ideia do 4 e do quadro (que somados resultam em quadra) pelo sentido de morada que ele comporta. Como os quatro discursos de Lacan (que se bem contados resultarão em cinco) que expressam antes de mais nada o lugar de onde ele profere seu ensino e onde avança na causa psicanalítica: expulso da IPA e de Sainte-Anne, estabelece seus discursos como os modos possíveis de se fazer laço social, sobretudo como as quadro paredes de seu Seminário. As quadras de consolo ocupam em meu percurso, menos complexo que o de Lacan, uma função parecida: me cobrem e me protegem do perigo que é esperar muito dessa vida. A poesia, a boa poesia que é sempre maldita, aquela que vem sempre manchar o brim da existência lembrando que a vida não é nunca pétala de seda, é o que nos reconciliar com esse caráter desacertado da vida. Já desde Heráclito sabemos que “o Ethos, a morada habitual, é para o homem o que o dilacera e divide”. A dor é inevitável assim como o é o vento e a tempestade. Mas a poesia sempre nos ensina que há como bem posicionar nossas velas e saber quando é hora de lançar mão dos remos e quando é hora de parar. A quadra de consolação, a de que me lembrei quando comecei a postar esta entrada, foi arquivada nos meus confusos registros desde o tempo do Seminário. Ela pertence a Tutaméia, no conto “Vida ensinada”.

“Devagar e manso se desata qualquer enliço,
esperar vale mais que compreender,
Janeiro afofa o que Dezembro endurece,
as pessoas se encaixam nos veros lugares”.

Banda de Moebius, imagem com a qual Rosa encerra seu Grande Sertão. Uma de suas significações mais evidentes é o infinito ou o que há de Real naquilo que insistentemente não cessa de não deixar de retornar.


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Sobre Pedro Gabriel

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3 respostas para Esperar vale mais que compreender…

  1. Carla Graziela disse:

    Vou dizer o que? LINDO!!;)

  2. diegotofoli disse:

    E dizes: “a poesia sempre nos ensina que há como bem posicionar nossas velas e saber quando é hora de lançar mão dos remos e quando é hora de parar”.

    Querido amigo, tão grande verdade nessa frase que ela sim se tornou minha quadra.

    Abraço imaginário de quem está longe, mas que é como se estivesse tomando um café contigo.

    Até!

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