Mães: origem e fim do mundo

Origin-of-the-World

“L’Origine du monde” (A Origem do Mundo), famoso quadro pintado pelo realista Gustave Courbet em 1866 sob encomenda do diplomata turco otomano Khalil-Bey.

Hoje, no dia das mães, celebramos aquela associada à vida: a porta do mundo por onde o adentramos em uma fantasia coletiva de ponto de convergência e segurança tão bem expressa por Guimarães Rosa no fragmento abaixo.

“Mas Diadorim mais não supriu o que mais não explicava. E, quem sabe para deduzir da conversa, me perguntou: –’Riobaldo, se lembra certo da senhora sua mãe? Me conta o jeito de bondade que era a dela…’. Na ação de ouvir, digo ao senhor, tive um menos gosto, na ação da pergunta. Só faço, que refugo, sempre quando outro quer direto saber o que é próprio o meu no meu, ah. Mas desci disso, o minuto, vendo que só mesmo Diadorim era que podia acertar esse tento, em sua amizade delicadeza. Ao que entendi. Assim devia de ser. Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bonda de. E eu nunca tinha pensado nessa ordem. Para mim, minha mãe era a minha mãe, essas coisas. Agora, eu achava. A bondade especial de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça, que eu menino precisava. E a de, mesmo no punir meus demaseios, querer-bem às minhas alegrias. A lembrança dela me fantasiou, fraseou –só face dum momento –feito grandeza cantável, feito entre madrugar e manhecer.” (Grande Sertão: Veredas, pp. 50-51)

Há, no entanto, uma outra mãe a celebrar, essa outra verdadeiramente esquecida, a mãe celebrada no Poema Negro por Augusto dos Anjos: a mãe “carnívora e assanhada” que tudo que acha no caminho, come… “Sai para assassinar o mundo inteiro, e o mundo inteiro não lhe mata a fome!”, a mãe que serve fogo quando temos sede, a única mãe do mundo que verdadeiramente é capaz de trazer paz e serenidade, a mãe cujo entendimento consiste na única tarefa válida de toda a filosofia: a Mãe Morte. E assim seguindo, equilibrados entre os braços dessas duas mães, por entre fantasias de paraíso e esperanças de eternidade, amando a mãe nascimento e esquecidos da mãe pacificadora, prosseguimos riocorrentemente em nossa eterna e corajosa missão de a cada dia fazer do mundo o que ele pode ser: nonada, recomeço.

veredas 006

Fragmento de “Grande Sertão: Veredas” do imortal Guimarães Rosa

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Sobre Pedro Gabriel

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