Considerações Sobre a Poiesis

“Me dêem algum céu em fogo, Neve em dia de verão.
Me dêem vidas em jogo. Rastros de morte no chão.
Amores com ousadia. Frisson de riscos de giz.
Que eu faço uma poesia. Ué, já fiz.”
(Millor Fernandes, Poemeu)

Há na poesia, costumava dizer Drummond, evidentemente quando vivo, o encanto de uma fantasia que se cristaliza em realidade. Por trás de sua colocação aparentemente trivial, encontramos um belo veio por onde começar a percorrer os sinuosos caminhos do termo poesia e da radicalidade de sua significação. O dito drummondiano evidencia o que há de mais arcaico no termo: a poesia faz algo com quem dela se aproxima, primeiramente com o poeta, que maneja cartas desconhecidas dele próprio para compor um jogo que modifica regras e surpreende os jogadores (como no Poemeu de Millor); em seguida surpreende o leitor que atesta o valor de obra do poema quando sente em si tais efeitos capturado que é na teia da cristalização de fantasias verossímeis. Amigo de Psicanalistas, o poeta de Itabira recusou-se até o fim a uma análise. Considerava que sua poesia era o meio suficiente e necessário para, ao final de sua vida, poder abrandar o rigor que trouxe consigo das montanhas e poder, no ocaso de tudo, perdoar o seu pai e dar um destino singular ao seu desejo. Sua poesia cristalizava-se, em sua vida, na forma de uma repetição de antigos modelos, mas repetição com diferença. Embora vivesse com poesia no gabinete de seu amigo e empregador Gustavo Campanema, poesia era o que o libertava de sua “escravidão em Papelópolis”, era o avesso do trabalho prático (oposição à práxis) que ocultava com a repetição do igual essa chama que se cultivada transformar-se ia no fogaréu do poema. Quintana, com sua fala doce e postura estoicamente recolhida de tudo aquilo que pudesse se parecer com vida prática, atestará o mesmo já desde a infância quando, em colégio militar no contato com pessoas embrutecidas pela rigidez bélica, deu-se conta de que não podia conversar todas as coisas com todas as pessoas do que concluiu que no mundo havia somente dois tipos de discurso e que aquilo que não é falatório é, por exclusão, poesia. Uma consulta ao radical (raiz) da poesia (à radicalidade, raiz) atestam o mesmo que tais poetas nos lembram generosamente. Do “poiô” = fazer obtemos os seguintes desdobramentos: – poíema: obra, poema; – poietés: fabricante, autor; – poietikós: produtor, operário. Numa rápida consulta a Aristóteles, encontramos vestígios do que dizem os comentadores que, em sua Poética, o filósofo de Estagira “supera” a poética homérica limitada a cadência, ritmo e forma e protagoniza o momento em que poesia é confundida com verdade. Definindo-a como “tendência à imitação” (mimese), Aristóteles nos fala de uma disposição que para ela era inata em todos os seres humanos. Entretanto faz questão de salientar que sua ideia de imitação é superior e distinta da de história (do mero registro) já que a poieses não representa as coisas acontecidas em sua concretude (como meio meramente expressivo), mas as coisas possíveis segundo a “verossimilhança e a necessidade” (Poética, capítulo 7). Por isso “ela é mais filosófica e mais elevada que a história, porque exprime o universal , enquanto a história exprime o particular” (Ibidem). Poiesis está aqui, neste momento da Filosofia, identificada como verdade porque de algum modo captura a essência necessária das coisas, já que no campo das vicissitudes humanas a essência é constituída pelas relações de verossimilhança e necessidade, os mesmos objetos da poesia (Abbagnano, p. 768). Desse modo, na ars operatio o homem opera poesia, agindo positivamente sobre as coisas. Antes do “O poeta é um fingidor” (um dos lemas do modernismo encontrado na autopsicografia de Fernando Pessoa), arcaicamente o poeta é um fazedor, fazedor de formas com a matéria prima das palavras (fazedor de versos). O poiético então é aquilo que é produtivo no sentido criativo da expressão, opondo-se ao prático (práxis). Ainda segundo Aristóteles a arte é produtiva e oposta à ação ordinária no mundo (plantar batatas, colher feijão, carregar tijolos, etc) que seria, por sua vez, prática. Analisando os conceitos fundamentais da metafísica, o gigante Martin Heidegger analisa o conceito de poiesis esclarecendo a sua oposição em relação à práxis. Na sua analítica existencial, supõe no dasein (modo não antropológico de se referir ao ser humano) uma tendência existencial de perder-se nos afazeres cotidianos, nas tarefas laborais e ônticas onde foge do seu poder-ser-propriamente repetindo constantemente de modo impessoal o mesmo. A poiesis, tal como a experiência da angústia, traz à tona aquilo de que o dasein se esquiva fazendo-o deparar-se com sua condição existencial de finitude, ser-pra-morte. Na sua evocação, poiesis confronta o dasein (ser humano) com o de que continuamente se esquiva propondo-lhe um outro caminho possível, um caminho próprio, em função da verossimilhança (possibilidade concreta) e da necessidade. Poiesis seria então, a partir dos conceitos de mimese, verossimilhança e necessidade, antes de mais nada o que atestam os autores que lançamos mão no início desse texto: um modo de reinventar-se no doloroso processo da elaboração de uma sentença narrativa que funda no sujeito um efeito ordenador. Desse modo, quando o poeta transforma em poema a matéria turva da vida, pode alternar aquilo que Hannah Arendt chamava de “an unbearable sequence of shear happenings” (uma sequencia de acontecimentos de tosquia, de poda) já que “All sorrows can be borne if you put them into a story or tell a story about them”. Aqui encontramos, como troco, a razão pela qual Freud tanto se interessava pela poesia: porque assim como a clínica psicanalítica, ambas (para fazerem jus ao nome que carregam) levam o sujeito a promover uma “imitação com distinção” da realidade, “repetição com diferença” em função da necessidade de não claudicar em torno do incompleto da existência e do indizível da linguagem.

Texto apresentado no grupo de pesquisa “Narrativa, Cultura e Desenvolvimento” da Profa. Dra. Luciane de Conti (UFPE). As fontes consultadas foram: Aristóteles. (1995). A Poética Clássica. São Paulo: Cultrix. Abbagnano, N. (2003). Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes. Gobry, I. (2007). Vocabulário Grego da Filosofia. São Paulo Martins Fontes. Moisés, M. (2004). Dicionário de Termos Filosóficos. São Paulo: Cultrix. Harendt, H. (1967). Men in Dark Times. Harcourt: Harcourt Press.

Anúncios

Sobre Pedro Gabriel

www.lituraterre.com
Esse post foi publicado em (... LITURAS PRÓPRIAS ...), Belas Artes, Literatura e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s