Ser (por Drummond)

“O filho que não fiz hoje seria homem. Ele corre na brisa, sem carne, sem nome. As vezes o encontro num encontro de nuvem. Apoia em meu ombro seu ombro nenhum. Interrogo meu filho, objeto de ar: em que gruta ou concha quedas abstrato? Lá onde eu jazia, responde-me o hálito, não me percebeste, contudo…

Noite (in)Feliz

Natal: o carnaval dos ruídos. Minha alma cobriu aterrorizada seus castigados ouvidos primeiro diante das declarações que proclamam uma espécie de leilão de best wishes e depois (agora mesmo, pra ser mais preciso) ante o alarido dos rojões soltados à minha janela e que me privam do merecido sono que adiará por mais um ano…

E não gostavas de festa…

“Teu olho cansado fitava-nos alma adentro (…) e via essa lama podre (…) sabendo que toda carne aspira a sua degradação. (…) E o desejo muito simples de pedir à mãe que cosa, mais do que nossa camisa, nossa alma frouxa, rasgada… Beber. Beber é pois ato tão sagrado que só bebido meu mano me…

Morrer… amar…

Morremos a todo instante. Nas pequenas e grandes desilusões da vida, nos imprevistos, contratempos, no não-negociável que nos cerca, no que há de incontornável em nossa condição, no a-Muro, no amoródio, no impossível da relação sexual. Morremos um pouco na solene ilusão do sexo, no circuito que se reabre inexoravelmente após os jorros amorosos evidenciando…

Poesia é pra essas coisas

O mundo é grande – nos lembra incessantemente Drummond – e nosso coração, ao contrário do que ele próprio imaginava na infância, não é maior que o este (o mundo). É tão menor, tão pequeno, que sequer pode conter adequadamente as dores que lhe cabem. O mundo é grande, mas infeliz e ironicamente muito pequeno…

Tristeza no Céu (por Drummond)

  “No céu, também, há uma hora melancólica Hora difícil em que a dúvida penetra as almas Por que fiz o mundo? Deus se pergunta e se responde: “Não sei” Os anjos olham-no com reprovação e plumas caem Todas as hipóteses A graça, a eternidade, o amor, caem São plumas Outra pluma, o céu se…

Um Vestido Para Cobrir nossa Solidão

Psicanálise, Filosofia e Poesia estão juntas, se co-pertencem     cruel- mente. Quando enlaçadas de modo borromeano dizem do ser do homem. Embora não sejam saberes harmônicos no sentido de que uma possa necessariamente ser dedutível da outra, ao seu modo falam do homem naquilo que lhe é mais próprio no exercício cotidiano de seu estar aí….

Caso Pluvioso (por Drummond)

“A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo. E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava. Eu era todo barro, sem verdura… Maria, chuvosíssima criatura! Ela chovia em mim, em…

Poema da Necessidade (por Drummond)

“É preciso casar João, é preciso suportar Antônio, é preciso odiar Melquíades é preciso substituir nós todos. É preciso salvar o país, é preciso crer em Deus, é preciso pagar as dívidas, é preciso comprar um rádio, é preciso esquecer fulana. É preciso estudar volapuque, é preciso estar sempre bêbado, é preciso ler Baudelaire, é…

Consolo na Praia (por Drummond)

  “Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em…