Poesia é pra essas coisas

Drummond em sua sala

O mundo é grande – nos lembra incessantemente Drummond – e nosso coração, ao contrário do que ele próprio imaginava na infância, não é maior que o este (o mundo). É tão menor, tão pequeno, que sequer pode conter adequadamente as dores que lhe cabem. O mundo é grande, mas infeliz e ironicamente muito pequeno para nos livrar do indesejável que tantas vezes se amontoa à nossa volta. A vida é breve, o tempo foge rápido como um felino. Mas não tão breve que somente guarde momentos dos quais nos enchemos de prazer em lembrar. Não obstante é preciso seguir adiante. Contra a necessidade é difícil negociar (a vida pequeno-grande-breve em seus imperativos). Entretanto na poesia (sobretudo nos soberanos escritos de Drummond) encontramos linhas para costurar nossa vida quando ferida. A poesia (ao menos a boa poesia) sempre nos presta um amparo quando se faz necessário escavar o vivido e encontrar nele o sentido que insiste em escapar e poder, havendo como, agir e modificar a vida em função do novo sentido construído. Jobim concordava conosco (comigo e Drummond). Tonzinho é um amigo comum, dessas companhias de dia e noite mais próximas que qualquer outro próximo. Não temos mais nos encontrado pessoalmente (a morte de ambos dificultou um pouco as coisas), mas nos mantemos em contato pelos escritos produzidos e imortalizados e nas janelas aberta pela tecnologia esburacando tempo, espaço e morte. Na janela abaixo Tom lê o Poema da Necessidade declarando o amor comum que sentimos pela obra de Carlos de Itabira. Também para ele essa poesia era luz no meio da treva.

6 comentários Adicione o seu

  1. Pedro Poeta

    Gostei muito dessa postagem, pela escrita e ousadia.Explico.Ontem, postei algo como : viver agora, só em detalhes.Escreví para ouvir.Aprender.Daí, continuei, dizendo que no meio do caminho, um poema.E que os poemas só t~em algum sentido se deles podemos usar, tal qual o foga, a roda e as lanças.Você, escreveu a que vêem, de forma independente , inclusive usando o eu e Drummond, de Itabira. Adorei a autorização. é que ainda sou nova hehe, nesses teares mas sinto pulsar o testemunho.Abraço, Cecília.

    1. Pedro Gabriel disse:

      Cecília Poetisa, nossa trama é comumente urdida de poesia e nosso roçado de palavras conhece os mesmos adubos. Somos planta de mesmo fruto.

  2. Ana Oliveira disse:

    Tonzinho? Adooro! É preciso precisar, enfim… No dia em que chegarmos à conclusão de que não é preciso mais precisar (de nada nem de ninguém), este será o dia de morrer. Ne c’est pas, mon ami? Bjs

    1. Pedro Gabriel disse:

      É preciso precisar do outro. E é preciso prescindir do Outro, dar-lhe uma rasteira, dizer-lhe “no meu juízo você não goza mais”. É preciso prescindir das causas (todas elas) perdidas. Obrigado pela leitura fiel e constante. Você é ouvido valioso para o quase nada que tenho a não dizer.

  3. Recentemente Herminio Bello de Carvalho, ainda vivo, lançou um livro sobre as cartas que trocava com Drummond.

    Os versos do poema me lembram a música do Chico César, que pode muito bem ter se inspirado neste poema. “Espinha Dorsal do Mim”

    E juntar Drummond e Jobim no mesmo post é covardia, é público garantido.

    1. Pedro Gabriel disse:

      Prezado amigo, agradeço o comentário. Tenho apreciado nossa troca de mensagens em miniatura via Twitter onde parece ser possível também dizer algo sobre o Ser. Não conhecia a música do Chico César. Sobre as cartas de Drummond, caso tenha interesse (e se ainda não conhecer) dâ uma olhada em “Carlos e Mário” (pela Editora Bem-te-vi). Trata-se da imprescindível correspondência trocada entre Drummond e Mario de Andrade. Carlos dirá ao final de sua vida que essa troca de correspondencias foi a mais importante para sua poesia (e não menos importante para Mario de Andrade, a semana de 20 e o modernismo brasileiro em geral). Enorme abraço.

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