Morrer… amar…

Morremos a todo instante. Nas pequenas e grandes desilusões da vida, nos imprevistos, contratempos, no não-negociável que nos cerca, no que há de incontornável em nossa condição, no a-Muro, no amoródio, no impossível da relação sexual. Morremos um pouco na solene ilusão do sexo, no circuito que se reabre inexoravelmente após os jorros amorosos evidenciando nossa sede infinita. Morremos todo dia, subtraídos de qualquer sombra de individualidade diluídos na multidão ruidosa que busca desesperadamente obliterar a angústia (nossa experiência mais imediata). Morremos quando cantamos a impossível alegria. Morremos na solidão angustiosa do barulho incontido de nossa gente, morremos na ira que o outro nos desperta, morremos exaustos em nossa cama após tantos dias repetidamente gastos em jornadas inúteis e irracionais afundados em um sono que adia para depois a atenção às questões fundamentais. Morremos num sono que nos faz renascer para então morrermos novamente errando invisíveis pela vida incompreendendo todos os nossos semelhantes na mesma e justa medida com que somos resolutamente incompreendidos. Contra a foice do tempo e da morte nada podemos e ante a secura dos nossos dias e à imprevisibilidade do que o mar traz à praia nada podemos exceto… amar (que é também morrer).

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Sobre Pedro Gabriel

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6 respostas para Morrer… amar…

  1. Aninha disse:

    Como somos monótonos, previsíveis, medíocres, todos somos. Um destino comum como esse, morrer e amar, amar e morrer… Ou a bem dizer, a ilusão imbuída em todos esses verbos – palavras. Amar a idéia de amar, a idéia da relação sexual, a idéia da coletividade, da compreensão, da compaixão. Alas! Oras, vamos morrer todos os dias, vamos amorodiar todos os dias! É preciso sempre precisar! É preciso encher de palavras o vazio, é preciso, sempre é preciso. Vem, Lobato! Viver resume-se à trama férrea das injunções.

    • Pedro Gabriel disse:

      Aninha, obrigado por seu comentário. Ele me fez pensar que talvez não tivesse deixado suficientemente claro qual era meu argumento principal (agora mais claro na alteração que fiz na última frase após ler seu comentário): amar é também morrer. Não há distinção. Da lista de verbos que você faz (muito bem, diga-se de passagem) eu não colocaria “ideia” (ou idealizar) como mediador dos verbos, colocaria a ideia (sobretudo ela) como mais uma das coisas que necessitam de uma barra ou de viver na justa percepção de onde ela falha e se torna insuficiente. Morramos sempre, com alegria, sorriso, solidariedade e sem os engodos do idealismo que (com a culpa que nos impõe) acaba por nos matar mais rápido. Obrigado mesmo pelos comentários. São ótimos.

  2. Cada dia se deixa um pedaço de vida pelo caminho, e que bom que no amanhã sempre vira um outra maré para tudo levar.

    Morrer pode não ser opcional, agora viver definitivamente é uma escolha.

    • Pedro Gabriel disse:

      Caro poeta-da-colina: a poesia é um escafandro de coragem no meio do nonada da vida. Poetar é antes de mais nada roer com dentes de ferro o osso da existência. Porque então fazer da poesia puro orvalho? Se ela é o que dá ao autor o desespero de si por que não ficar sem uma resposta? Será que pra tudo temos que ter resposta? Deve haver um S1 pra tudo? Uma regra prática pra qualquer impasse? Um abraço.

  3. Viviane disse:

    Pedro, grata pelo link.
    Pois é! Outra coincidência – tbm postei este poema do Drummond no videbloguinho. Até parece que somos velhos conhecidos, não é Pedro? (rs) Muito lindo o seu texto sobre a morte e o amor. Tenho pensado muito em ambos, sobretudo nesses dias… E por outra coincidência, ontem mesmo, acho, deixei um comentário no blog do Raphael Douglas, o filósofo, sobre um post que fala da morte, do amor, do desejo. Há um jogo de palavras até, não tenho certeza agora se vem de Lacan, com amor e morte. Há uma crônica do Paulinho no livro “O amor acaba” em que ele brinca com as palavras amor, morte… se minha memória não falha agora – acho que há uma crônica lá… Bom, mas eu queria te falar que li no final do ano passado um livro muito interessante do psicanalista Marco Antônio Coutinho Jorge (Uerj) que se chama “Fundamentos da Psicanálise – de Freud a Lacan – A clínica da fantasia” (Vol.2, p. 173-175) e ele diz algo sobre o amor, a morte, que eu julgo incrível – “o amor enquanto afirmação da vida diante da morte”. Ele fala desse amor enquanto afirmação da vida, a partir dos relatos do episódio das torres gêmeas. Várias pessoas deixaram mensagens que diziam eu te amo. Então, o Marco Antônio diz: “Afirmar o amor, nesse caso, seria quase como nascer de novo e dar a vida ao outro igualmente, uma vez que a vida depende do desejo e do amor do outro. Trata-se, então, de afirmar radicalmente a vida diante da morte” (…)
    E aí?…
    Eu, sinceramente, desejo e torço pra que seja assim: o amor até o último sopro de vida nos ensinando a viver. Tomara… Por isso mesmo, a gente deve continuar amando “depois de perder”.
    Abraço pra vc!

    • Pedro Gabriel disse:

      Vivi, em função das minhas obrigações acadêmicas eu me sinto (lendo seu comentário) como alguém diante de um banquete do qual terá tempo de apenas saborear o que está mais próximo. Perdoe-me a pressa momentânea, mas muitas e longas cartas nos esperam.

      Mais do que velhos conhecidos somos familiares. Drummond costumava falar num “rio de sangue” que é uma espécie de torrente invisível que une, de ponta a ponta, as gerações de uma família. Eu penso num “rio de letra” que torna familiares os que amam os mesmos autores. Se você entrar no meu perfil do FaceBook (www.facebook.com/lituraterre) você verá que “herdei” as dores de cabeça de João Cabral, a melancolia de Drummond, as ressacas de Nietzsche, o apreço por charutos de meu pai Freud do mesmo modo (ou talvez em caráter mais intenso) como se herdam geneticamente índoles e disposições. Então prima vivi, seja bem vinda.

      Rapha é um amigo querido, um ex-colega de faculdade. Fernando é um ex-professor e hoje amigo. Estava aqui imaginando a viabilidade de um vindouro encontro de família, um evento reunindo blogueiros que poderia ser em Recfife ou em “lórizõnte” que também é terra de poeta e gente inteligente que bloga.

      Psicanálise lida fundamentalmente com o amor (que ao lado da morte e da ignorância) é uma de nossas paixões fundamentais. No seminário 20 Lacan faz vários trocadilhos com o amor: lamur (aMuro) e lamort (aMorte) são os mais conhecidos. Thânatos desenha em nossa vida nosso horizonte. É a possibilidade de toda impossibilidade e por isso mesmo é nossa principal referência. Felizmente Eros sopra nossas velas pra longe dessas bordas quando nossa náu ameaça perder-se e a poesia, nesse sentido, é herdeira de Eros (sem romper com Thânatos).

      Amemos, amemos sempre, amemos muito. E na concha vazia permaneçamos crentes que um dia amaremos pra nunca mais perder. Mesmo sabendo ser mentira amemos mesmo o engodo e nossa sede que às vezes dói e corta.

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