Poesia: principal passagem para Pasárgada

 

O jovem Manuel Bandeira – Fonte: Condomínio dos proprietários dos direitos de imagem de Manuel Bandeira

A poesia traz a promessa do prazer. É fatal: poesia é antes de qualquer outra coisa fruição. Palavras ecorrendo da boca como o mel respingando dos favos. Em Bandeira (e em mais alguns outros Poetas Maiores) ela é além disso reconciliação. Reconciliação com aquilo que na vida se coloca como impossível e ante o qual é irrelevante negociar. Em Epígrafe (poema-preâmbulo registrado no post anterior) que em 1917, sob o volume entitulado “A Cinza das Horas”, Manuel Bandeira do Capibaribe e do Brasil deu seu primeiro  e gigantesco passo na poesia nacional. Mais que uma epígrafe do volume, o verso acima resume sua alma e traça a rota do conjunto de sua obra. Separado pelo tempo de seu avô Totonho Rodrigues, de Tomásia, Aninha Viegas e separado da vida pela insistente tuberculose (que o privou de todos os prazeres da vida sem contudo dizimá-lo), Bandeira faz de sua poesia a sua Pasárgada: nela pôde constituir os perdidos prazeres da infência: montar em burro brabo, tomar banhos de mar, subir em pau-de-sebo. Seu poema é seu alcalóide, é a prostituta bonita com quem namora. Sua poesia extraordinária é um enorme exemplo de como a matéria nebulosa da vida pode transformar-se oportunamente em poesia salvando o poeta de uma vida desnecessariamente dolorosa. Como escreve Hannah Arendt “All sorrows can be borne if you put them into a story or tell a story about them” e a poesia cumpre esse magnífico propósito.E isso evidentemente sem recair na poesia puramente como orvalho: poesia é mancha no Brim muito alvo da existência (como diz o próprio poeta), é aquilo que dá ao leitor o desespero de si, mas é também o que o impede de ficar encalhado no atoleiro improdutivo da tristeza masoquista: “Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria…”, dirá Bandeira. A poesia o salvou. A persistência de Bandeira que travou luta contra a doença e as diversas limitações impostas pela vida e a reconciliação encontrada com aquilo que da vida se torna possível continua, em forma de poesia, bem viva. Continua nos salvando a todos os seus atentos e felizardos leitores. Todos nós somos de algum modo salvos e redimidos pela poesia de nossos heróis quando a grossa tristeza da vida nos chega com seu sabor amargo de desilusão fazendo sinthome, apontando para um saber-fazer com o sintoma.

[O curta-metragem abaixo “O Habitante de Pasárgada” é um dos 10 episódios de uma série de micro-documentários sobre os principais nomes de nossa poesia levados a cabo pelo escritor Mario Sabino. “Instantâneo do Cinema Novo sob as lentes de Joaquim Pedro apresenta um Manuel Bandeira (1886-1968) solitário, de hábitos frugais: sopra a boca do fogão em busca de um café fresco, de pijama, escreve à máquina, compra jornais e leite nas redondezas, caminha pela Avenida Rio Branco e recita seus próprios versos, que saltam de sua imensa generosidade como os pães da torradeira no apartamento na Lapa.” Fonte: http://www.camara.gov.br/internet/tvcamara%5D

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Sobre Pedro Gabriel

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2 respostas para Poesia: principal passagem para Pasárgada

  1. No fim não há gestos, flores, céus, árvores…no fim sempre existirá a palavra, sorte de quem a soube tratar, mais ainda de quem as hoje pode revê-las.

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