Pecado Original (por Fernando Pessoa)

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? Será essa, se alguém a escrever, A verdadeira história da humanidade. O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo; O que não há somos nós, e a verdade está aí. Sou quem falhei ser. Somos todos quem nos supusemos….

Único Fato

Elias Canetti, o humanista búlgaro, fez merecer, com a aguda ponta de sua pena que furava a carne e adentrava a alma, o Nobel que recebeu. Sua presença nesse blog já era há muito desejada e eu imaginei que sua introdução seria na forma de um comentário sobre seu genial Die Befristeten (“Os que têm…

Tempo de Amor (fragmento)

“Ah, bem melhor seria Poder viver em paz Sem ter que sofrer Sem ter que chorar Sem ter que querer Sem ter que se dar Ah, bem melhor seria Poder viver em paz Sem ter que sofrer Mas tem que sofrer Mas tem que chorar Pra poder amar Ah, mundo enganador Paz não quer mais…

O Lutador (por Carlos Drummond de Andrade)

“Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à…

Achando o Amor

Paulo Mendes Campos é de uma safra especial de cronistas, daqueles que pelas urgências do estômago acabaram por se tornar um mestre nesse estilo com peculiaridades tão nacionais. Amigo de Quintana, Vinícius, Drummond, Bandeira e demais gigantes intelectuais de sua geração, deixou-nos um legado de verdadeiros mapas existenciais de nossas mais secretas e contraditórias veredas….

Modesto, Kafka

Schopenhauer diz que, fundamentalmente, “a tarefa do escritor de romances não é narrar grandes acontecimentos, mas tornar interessantes os pequenos”. Nada mais apropriado para se dizer do escritor tcheco Franz Kafka que construiu, ao longo de sua obra que cresceu em silêncio sob o manto do mais completo desconhecimento, personagens que “não sabiam do que…

Velho Olhando o Mar (por Affonso Romano de Sant’Anna)

Para os que, como eu, acordam todos os dias aflitos com o limitado estoque da vida (já citando o homenageado do post) esvaindo-se tempo a fora, presenteio com essa crônica-tesouro narrada pela voz do próprio autor: o mineiro Affonso Romano de Sant’Anna. Que envelheçamos com dignidade ajuntando marés interiores a serem futuramente recordadas.   Affonso…

Relva Verde Relva (por Ferreira Gullar)

“Dentro de mim – mas onde? no céu da boca? debaixo da pele? – fulge de repente um largo verde esquecido dentro de mim ou fora (em algum lugar nenhum) de mim um largo como se fosse um lago e quase a transbordar de verde ouvia a miúda algazarra da relva rente ao chão ah…

Noite (in)Feliz

Natal: o carnaval dos ruídos. Minha alma cobriu aterrorizada seus castigados ouvidos primeiro diante das declarações que proclamam uma espécie de leilão de best wishes e depois (agora mesmo, pra ser mais preciso) ante o alarido dos rojões soltados à minha janela e que me privam do merecido sono que adiará por mais um ano…