Único Fato

Elias Canetti

Elias Canetti

Elias Canetti, o humanista búlgaro, fez merecer, com a aguda ponta de sua pena que furava a carne e adentrava a alma, o Nobel que recebeu. Sua presença nesse blog já era há muito desejada e eu imaginei que sua introdução seria na forma de um comentário sobre seu genial Die Befristeten (“Os que têm a hora marcada”), uma das coisas mais engenhosas que já li. Pessoas que carregam medalhas onde estão inscritas data e hora exatas de sua partida (vista pelos outros, mas não por si próprios) demonstram como a morte, assim como supôs Freud ao final de sua vida, mais que a sexualidade, é a enorme força que nos determina. Adiarei no entanto esse comentário para um tempo que virá e evoco sua presença, com o fragmento que trago abaixo do seu diário recém publicado, para esboçar uma resposta ao psicólogo Roberto Freire que em entrevista ao programa Provocações faz uma crítica ingênua à Psicanálise menosprezando o papel da morte para a nossa civilização e para a nossa organização psíquica individual. Diz Roberto que a morte não passa de uma frágil palavra para expressar somente o nosso estado de não podermos mais ser vistos, como se fosse coisa contornável e que em última instância nada nos diz podendo (como conclusão de seu argumento) simplesmente ser ignorada. A entrevista tem alguns pontos de luz e sua figura (a do Roberto) diz coisas que merecem alguma atenção, mas como toda essa massa de terapeutas racionalistas (alguns pretensamente psicanalistas como o Contardo Calligaris e o Jurandir Freire Costa), Roberto demonstra-se uma figura atormentada com a diligência do grande abismo dizendo coisas pueris como a ideia da morte como algo inócuo ou desprezível. Como os seus pares, prefere pensar que tudo se resolve no campo político de uma reorganização das forças vitais que nos determinam coletivamente. A contemplação simples do que ocorre à nossa volta, a existência em sua apreensão mais prática e dinâmica, irá demonstrar como as pessoas reagem das maneiras mais desmedidas simplesmente ao ouvir tal “mera palavra”. Tamanho medo e recusa  já seriam suficientes para refutar tal pressuposto do Sr. Freire, mas me recordei do tal fragmento do diário de Canetti e do seu argumento da Morte como fato por excelência (quiçá o único) e o introduzo com prazer em meu Blog.

“A morte é o primeiro e mais antigo, haveria quase a tentação de dizer: o único fato. A morte tem uma idade monstruosa e, ainda assim, é nova a cada hora. Seu grau de dureza é dez – e ela corta como diamante. Possui o frio absoluto do espaço exterior: 273 graus negativos. Ela tem a velocidade de um furacão, a maior. É muito real e superlativa, mas não é infinita, porque pode ser alcançada por qualquer caminho. Enquanto a morte existir, qualquer declaração é uma declaração contra ela. Enquanto a morte existir, qualquer luz é um fogo-fátuo, pois conduz a ela. Enquanto a morte existir, nenhuma beleza é bela, nenhuma bondade é boa. Todas as tentativas de chegar a um acordo com a morte (o que mais são as religiões?) falharam. A descoberta de que não há nada após a morte – uma apavorante e inexaurível descoberta – banhou a vida com uma nova e desesperada santidade. O escritor que é capaz de participar de muitas vidas deve participar também de todas as mortes que ameaçam aquelas vidas. Seu próprio medo (e quem não teme a morte?) deve se tornar o medo que todos têm da morte. Seu próprio ódio (e quem não odeia a morte?) deve se transformar no ódio que todos têm da morte. Isso, nada mais, é sua oposição ao tempo, repleta de uma miríade de mortes.” (Por Elias Canetti, tradução: Nelson Ascher.)

LINKS PARA O PROGRAMA

Anúncios

Sobre Pedro Gabriel

www.lituraterre.com
Esse post foi publicado em (... LITURAS PRÓPRIAS ...), Amor, Ódio e Ignorância, Ec-sistire, Literatura e marcado , , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para Único Fato

  1. Um dos melhores argumentos que já li. Perfeito!

  2. Marijô disse:

    Belo argumento! O mais velho fato, a única certeza que no entanto, se renova e nos surpreende sempre. Obrigada por trazer aqui o brilho do humano em Canetti.

  3. Everton Greguer disse:

    Quando me ponho a pensar na morte, ponho-me a pensar em tudo. O que existe e nos banha é a morte. Em nossas vidas e em nossas divagações estamos impregnados de morte. Mas alguém há de dizer que a conhece? Se se fala sobre a morte, postula-se.

    • Pedro Gabriel disse:

      Caro Everton, suas questões complementam a postagem e engradecem meu blog. Penso, como Heidegger, que a morte é nosso horizonte de possibilidade no sentido em que ela é o parâmetro principal que confere e organiza sentido a tudo o que nos rodeia enquanto experiência de estarmos aí lançados. De fato postulamos sobre a morte como, talvez, um negativo da vida. Morte inclusive como um evento da vida. O que achas?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s