Dia do Trabalho com Drummond: Elegia 1938

Operários, por Tarsila do Amaral

Operários, por Tarsila do Amaral

Não somente em homenagem aos oito operários enforcados em Chicago (saudados anualmente por todo o mundo nesse primeiro de maio), mas em cumplicidade a todos os demais sufocados pelo tédio da vida que se apega em nós oleosamente como gordura a empapar nossa alma, publico uma das Elegias Drummondianas. No miolo de sua obra imensa, Drummond usa a palavra Elegia para dar nome a cinco de seus maiores poemas. Um deles, o que recebe esse nome sem adjetivações, publicado em 1954 no seu soturno Fazendeiro do Ar,  já circulou anteriormente neste blog e a palavra retornará ainda em 31 de Janeiro de 1987 quando, em um leito de hospital, escreve seu último poema (Elegia a um Tucano Morto que será publicado em Farewell, último livro organizado pelo autor em vida e que figurará em breve neste espaço). Trago aqui Elegia 1938, poema escrito nesta data e publicado dois anos depois em Sentimento do Mundo. Enquanto gênero literário, uma Elegia é um lamento, uma ἐλεγεία, o último canto de um guerreiro antes de seu fim inventariando seus feitos tal como devem constar em seu epitáfio e como o mundo vindouramente deverá celebrá-lo nas histórias que o darão vida. Por quatro vezes Drummond falhou. Compôs elegias e seguiu vivendo. Na presente Elegia o lamento é do mundo que nos dissolve. Dirige-se não ao próprio poeta, mas a todos em nosso desgastante e diário labor de viver pardamente fazendo girar a roda do mundo, uma mó de moinho que sem pensar digere a si mesma. Mói, mói, mói. O mundo padece, queda em delírios de morte, cresce e, expandindo-se, destrói-se. Há, contudo, um trabalho a ser feito: uma tarefa de sobrevivência e lucidez a ser atualizada dia após dia. Dinamitar a ilha de Manhattan não é a solução.   Praticar gestos próprios abdicando da segurança da horda, assumir nosso destino indo além das fantasias correntes de solução do mundo… talvez. A Travessia é uma aventura sem garantias. Bom trabalho a todos. Hoje e pós-hoje e no constante do prosseguir da vida.


ELEGIA 1938 (por Carlos Drummond)

“Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.”

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Sobre Pedro Gabriel

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Uma resposta para Dia do Trabalho com Drummond: Elegia 1938

  1. Caminhemos entre estes, na busca falível de não sê-los.

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