Chico e Pedro

Chico Buarque

Chico Buarque não é o maior compositor de nossa história. Ele próprio, em  entrevista concedida há alguns anos e transformada hoje em DVD, reconhece o inegável: é  Noel Rosa, dentre todos os seus pares, aquele que elevou a música até o ápice de sua forma técnica com seus micro-contos feitos no ritmo do samba que ele próprio refundou. Não obstante, Chico é sem dúvida o maior dentre os de nossa geração constituindo-se na maior instituição musico-literária viva: uma ilha de fertilidade no deserto litero-musical em que vivemos. Autor de uma produção constante e aguda que se estende por exatos 45 anos (contando a partir de seu primeiro disco, lançado em 66), tem a alegria de ver  envelhecer  (obra e obreiro) da melhor forma possível. Não imagino contexto em que seja preciso insistir quanto ao valor estético que tamanha obra comporta e menos ainda sou capaz de conceber situação em que a importância histórica desse autor seja desprezada ou contestada. Esse último ponto, aliás, conforme Fernando de Barros e Silva (em belo livro editado pela PubliFolha), torna nosso Chico o maior de todos os de todas as gerações: “de nenhum outro compositor ou escritor contemporâneo talvez se possa dizer que a história do Brasil, de 1964 até hoje, passa por dentro de sua obra” (avalia com justiça já na oitava página). Que o leitor que eventualmente não esteja familiarizado com tal tesouro não se engane com a frase de Fernando que, se entendida literalmente, iria sugerir que na música imensa de nosso Chico encontramos somente mero e frio registro histórico das mazelas individuais e coletivas que nos acossam há quase meio século. Isso também, sem dúvida, mas sobretudo o que encontramos nos subterrâneos de suas notas sagradas é a descrição poética dos segredos e abismos do intinerário individual e (por vezes) inconfessável de cada um de nós que se aventura na vida e o que ela, em epifania, apresenta ou nega. Chico é também eterno: sua obra permanecerá para sempre como a lembrança do que de mais delicado se pode fazer com o Samba e com o amor: o que começa (Modinha), o que dilacera (Nuvem Negra), o termina e exige das contas a prestação (Trocando em Miúdos), o que termina antes de um lado (Atrás da Porta) e o que só chegou a acontecer de um deles (Até Pensei) e mesmo o que, sem interrupção, segue o triste curso de sua rota mais habitual (O Casamento dos Pequenos Burqueses, A História de Lily Braun). Não ouvimos Chico por sua importância histórica (essa característica o faria habitar em livros, não em nossos ouvidos). Ouvimos Chico porque, como num espelho distorcido pelo que de possível permite se dar a turva verdade, ali encontramos a nós próprios e a nossa condição expressa em nossas cruas alternâncias e contradições mais fundamentais (À Flor da Pele, Roda Viva, A Banda). Mas sobretudo ouvimos Chico porque algo nos falta e faltou (Maninha). Chico Buarque é o maior compositor de nossa história.

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PEDRO PEDREIRO (por Chico Buarque)

“Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol esperando o trem, esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém

Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro, esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte

Pedro não sabe mas talvez no fundo espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais

Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem

Que já vem…
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem”

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Sobre Pedro Gabriel

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7 respostas para Chico e Pedro

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  2. Chico não é o maior, mas dá para competir.

    E como, e como!!! dá desespero de esperar demais. Essas que você destacou são minhas frases favoritas da música mais a seguinte “…quer ser predreiro pobre e nada mais…”

  3. Wilza disse:

    Concordo em gênero, número e grau. Chico é imbatível. Grande poeta do cotidiano e dos amores.

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