Palmares e Paris: as epifanias amorosas do poeta Ascenso e do psicanalista Lacan

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Ascenso Ferreira, poeta maior, com sua poema Nordeste nos dá um belo exemplo literário do que Lacan, da margem direita do Sena, no seu consultório no n° 5 da Rue de Lille, descreveu como sendo a propriedade fundamental do amor: fazer o gozo condescender ao desejo. O psicanalista torto do charuto torto com isso queria dizer que o amor é um dos principais negociadores em face ao gozo (em sua forma mortífera de precipitação no abismo) quando ameaça anoitecer-nos. O desejo (como aquilo que do gozo é possível) passa a puxar o train de vie como força principal não sendo mais o contrapeso do gozo então subjugado. O resultado disso? Aquele sentimento de que nos tornamos magníficos. A deliciosa ocorrência prazerosa do amor que chega (temporariamente ao menos) com o sabor e a maciez da língua de um colibri, que nos traz a imaginária sensação de completude e faz com que todas as forças colaborem para a operacionalização das demandas práticas da sobrevivência. Docilmente o gozo cede ao prazer. Doce a vida se torna com tudo ao seu redor. De sua cadeira (no quintal de sua residência na cidade de Palmares) o velho Ascenso tem o vislumbre da mesma epifania do psicanalista francês: ele nota que o amor se torna a chave que José não tinha para a porta que não havia. Amor se torna chave e porta:  o que apazigua qualquer desafio contingencial da nossa pobre e solitária existência.  O que contrabalança extremos de frio e calor e que na Epifania de Ascenso (que tornou-se universal cantando Palmares) aparece na forma do inconstante amor.

 

Ascenso Ferreira (Estátua na margem do Capibaribe, em frente à Livraria Cultura no Recife)

NORDESTE (por Ascenso Ferreira)

“O ferreiro malhando no topo das baraúnas.
Nas lombadas da serra o sol é de lascar…
Nem uma folha só fazendo movimento!…

– Nana! Ô Nana!
– Inhor!
– Chega me abaná

Pouco a pouco porém, vem vindo um frio lento
trazido pelas mãos de moça do luar…

Que gozo nos coqueiros acarinhados pelo vento!…

– Nana! Ô Nana!
– Inhor!
– Chega me esquentá….”

* Nordeste (Escrito por Ascenso Ferreira e Narrado por Chico Anysio)

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