Nova Poética (por Manuel Bandeira)

“Vou lançar a teoria do poeta sórdido. Poeta sórdido: Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida. Vai um sujeito, Saí um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama: É…

O Guardador de Rebanhos – Parte VIII (por Alberto Caeiro)

  “Num meio-dia de Primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se longe. Tinha fugido do céu. Era…

No meio do caminho… (por Carlos Drummond de Andrade)

“No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no…

O Lutador (por Carlos Drummond de Andrade)

“Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à…

O Mito (por Drummond)

  O Mito [Escrito e Narrado por Carlos Drummond de Andrade] by lituraterre “Sequer conheço Fulana, vejo Fulana tão curto Fulana jamais me vê, mas como eu amo Fulana. Amarei mesmo Fulana? ou é ilusão de sexo? talvez a linha do busto, da perna, talvez o ombro. Amo Fulana tão forte, amo Fulana tão dor,…

Lisbon Revisited (por Fernando Pessoa)

  “Não: não quero nada. Já disse que não quero nada. Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas! Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas Das ciências (das ciêricias, Deus meu, das ciências!)— Das ciências, das artes,…

O Rio (por Manuel Bandeira)

Abaixo apresento aos meus leitores um outro rio. Não o rio espinha de peixe com padrão duro de poeta pretensa e mentirosamente anti-lírico, mas rio caudaloso de lirismo sobressalente e assumido. Em seu “Poética”, Manuel Bandeira se diz farto do lirismo comedido e bem comportado apelidado ironicoepifanicamente de “lirismo funcionário público com livro de ponto…

O Rio (por João Cabral de Melo Neto)

De uma recitação fluente e ritmada como o é o fluxo do rio, apresento João Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas de nosso e de todos os idiomas. Cabral é duro como a Pedra que sempre cantou. Dono de uma impertinente dor de cabeça que (em caráter emblemático) só o deixaria dormir em…