Lisbon Revisited (por Fernando Pessoa)

Caricatura de uma famosa foto de Fernando Pessoa passeando pela rua da baixa. Ao seu lado as sombras assombrosas dos seus principais heterônimos.

 

“Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciêricias, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a
Sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seia de companhia!

Ó céu azul -o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ô mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!”

(o poema acima foi composto por Fernando Pessoa na casca de Álvaro de Campos. Os grifos são nossos, do tempo em que transcorre. Abaixo apresento a impetuosa narração de Antônio Abujamra)

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Sobre Pedro Gabriel

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4 respostas para Lisbon Revisited (por Fernando Pessoa)

  1. Isabel Pinheiro de Paula Couto disse:

    Belo post, Pedro! Álvaro de Campos, o mestre dos mestres. O poeta que questiona tudo, inquieto, rebelde! Sem dúvidas é o heterônimo de Pessoa mais avassalador, traz à margem dos pensamentos uma força vigorosa dos mais diversos anseios.
    Como neste poema, quantas vezes não nos sentimos assim indiferentes e distanciados da realidade que nos cerca, não é?
    Boa escolha! Sempre um prazer ler! Mesmo me encontrando em uma fase mais próxima de Caeiro. 😉

    • Pedro Gabriel disse:

      Doce Isabel, conheces (também do Álvaro de Campos) o poema “Cruzou por mim”? Qualquer dia ele pinta por aqui e com homenagem a você. Viva sua fase Caeiriana: campestre, de ausência de razão, apreendendo a vida pela via régia dos sentidos e da fruição. Ai do ser humano que não tem no curso de sua breve vida um momento de guardar rebanhos. Obrigado pelo comentário.

  2. Isabel Pinheiro disse:

    Oi Pedro!
    Conheço. Lógico. 🙂
    Parece que a tua fase é Camposiana…
    Obrigada pela honra da minha futura homenagem! Nada mal, mesmo. Fico lisongeada.
    Disseste muito bem: “Ai do ser humano que não tem no curso de sua breve vida um momento de guardar rebanhos.” Meu olhar é nítido tal qual o de um Girassol! 😉

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